Tem a certeza de que lava bem os dentes?Notícias de Saúde

Sábado, 14 de Janeiro de 2017 | 109 Visualizações

Fonte de imagem: Huffingtonpost

Rita Figueiredo sangrou das gengivas várias vezes ao longo da vida. Era coisa de pouca dura, pelo que nunca deu especial importância ao facto. Por volta dos 45 anos, com a gengiva inchada e novamente a sangrar, teve de recorrer a um especialista, indicado por um amigo com o mesmo problema.

Já fez vários tratamentos que lhe custaram umas centenas de euros e, ainda por cima, “passou fome” pois cada um deles implicou uma semana de alimentação líquida e fria e ela gosta muito de comer. Hoje é uma doente controlada mas ainda lhe falta eliminar um importante fator de risco: deixar de fumar.

Este é apenas um exemplo revelador de um problema de saúde que afeta cerca de 35% da população mundial. Patrícia Rodrigues, médica dentista com prática exclusiva em periodontologia e implantes, traça os contornos da doença e explica como a evitar.

Muitas pessoas sentem a gengiva inchada e, por vezes, a sangrar. É uma gengivite? A que se deve?

Na maior parte das vezes esses são sintomas de uma gengivite. Existem inúmeras causas mas a mais frequente é a acumulação de placa bacteriana por más práticas de higiene oral.

Que medidas podem ser tomadas? É sempre necessário ir ao médico?

Devemos procurar um dentista sempre que notarmos estes sintomas. Não são “normais” nem devem ocorrer desde “que me lembro de ter dentes”, como por vezes se pensa. A resolução de uma gengivite, uma vez que é uma doença reversível, passa pela ação do médico e também pela correção dos hábitos de higiene oral da pessoa em causa.

Às vezes evolui para periodontite. De que se trata exatamente?

Quando uma gengivite evolui para uma periodontite já estamos a falar de outra “constelação” de doenças. A periodontite não é reversível, torna-se uma doença crónica mas, ao contrário do que muita gente julga, tem tratamento e pode manter-se estável. Antigamente chamava-se piorreia e não é mais do que a destruição de todo o tecido de suporte do dente, gengiva e osso, de forma definitiva. Não afeta os dentes mas estes caem quando já não têm mais osso a segurá-los.

Trata-se de uma doença comum?

Sim, podemos considerar que 35% da população adulta mundial sofre de algum tipo de doença periodontal. Atrever-me-ia a dizer, pelos meus “cálculos”, que 98% não desconfia que tem a doença…

Pode não haver sintomas?

A doença periodontal é muitas vezes silenciosa, isto é, não dói. Existe a ideia, muito portuguesa, de que só deveremos procurar um médico quando nos dói alguma coisa mas, no caso da periodontite, haver dor poderá significar que a inflamação já é de tal forma grave que pouco há a fazer e iremos perder os dentes. Poderá soar a cliché mas na “prevenção é que está o ganho”.

A gengivite é a principal origem?

Não, nem sempre a periodontite evolui de uma gengivite. Podemos considerá-la como uma doença multifatorial, de origem inflamatória onde coexiste a ação de bactérias, a resposta do nosso sistema imunitário, a suscetibilidade genética de cada um e os fatores de risco.

Que fatores são esses? Fumar é um deles, não é?

Existe uma lista de fatores de risco enorme. A molécula de nicotina é a mais “maléfica” e é seguida de perto pela diabetes Mellitus. Mas também podemos considerar o stress ou a osteoporose, por exemplo.

Afeta sobretudo pessoas a partir de que idades?

É mais frequente nos adultos. Geralmente a partir dos 45 anos, no caso da periodontite crónica, que é a mais comum e que tem o seu pico entre os 50 e os 65 anos. Também pode afetar crianças e adultos jovens mas, nestes casos, trata-se de tipos de periodontites diferentes e mais raras.

Quer a gengivite quer a periodontite podem dever-se apenas a má higiene oral?

A causa mais frequente de ambas as doenças é o mau controlo da placa bacteriana.

Isto é, as pessoas escovam mal os dentes e gengivas – sim, as gengivas também deverão ser escovadas! – e só se lembram de usar o fio dentário ou escovilhão quando sentem comida fibrosa intrometida entre os dentes. É, na minha opinião, o maior desafio que temos pela frente, em termos educacionais da população em geral.

Nem toda a gente sabe lavar os dentes, portanto…

As pessoas não sabem lavar os dentes corretamente, ponto. As técnicas de higiene oral deveriam ser ensinadas às crianças desde tenra idade pelos pais, educadores, profissionais de saúde, etc. Mas é rara a escola onde as crianças têm uma escova e pasta dentífrica para lavarem os dentes à hora de almoço. Pior: existem escolas onde não é permitido às crianças terem uma escova de dentes…

Então como é que se deve fazer a higiene oral? Quanto tempo deve demorar, que escova e pasta dentífrica usar? É necessário bochechar com líquidos próprios?

Demora dois minutos e, no caso dos doentes periodontais a escova deve ser suave, nos outros casos média. Quanto à pasta, depende dos componentes, se queremos uma que atue muito especificamente sobre as gengivas ou uma pasta para atuar sobre o dente. Pode até ser comprada em supermercado mas devemos sempre pedir o conselho ao dentista ou ao higienista. No caso dos colutórios/elixires é igual: depende dos componentes, deve pedir-se conselho ao médico dentista.

As escovas elétricas são preferíveis às manuais?

Não. Uma escova manual usada corretamente é tão eficaz quanto uma elétrica.

E o uso de fio dental e/ou escovilhão? É obrigatório?

O fio dentário deve ser usado sempre! Para quem tem dificuldade em fazê-lo, existem aplicadores muito práticos, que nos simplificam muito a vida. Têm a forma de serrilha e basta segurar no cabo para o fio entrar no espaço entre dois dentes e remover a placa bacteriana. Quando os espaços entre dentes são demasiado largos e sentimos que o fio dentário está a “nadar” nesse espaço e não consegue remover toda a placa, então o melhor será usar o escovilhão. Tem uma técnica de uso simples e muito prática.

E quantas vezes ao dia se deve lavar os dentes?

Eu já fico contente com os meus pacientes quando eles escovam os dentes e usam o fio/escovilhão duas vezes por dia! De preferência, depois do pequeno-almoço e depois do jantar. Se conseguirem depois do almoço fico radiante!

Quando, num intervalo de uma reunião, por exemplo, não há mesmo tempo para lavar os dentes, existem soluções de recurso? As pastilhas elásticas ajudam?

As que não têm açúcar poderão ajudar. Mas atenção porque se lhes recorrermos muitas vezes poderão provocar danos noutras estruturas da boca… Por exemplo na articulação temporo-mandibular, ou seja, a que permite os movimentos mastigatórios, entre outras funções importantes.

Normalmente vai-se ao dentista quando há queixas. Seria bom fazer uma “revisão” regular?

Claro! As consultas de check-up deverão ser realizadas de seis em seis meses.

Deve ser o médico dentista a aconselhar a ida ao periodontologista?

Sim, deverá ser o médico dentista generalista a detetar a patologia gengival e encaminhar para o colega da especialidade.

Quais são as consequências da periodontite?

A periodontite tem tratamento. É uma doença crónica tratada e mantida estável, na maior parte dos casos, exceto quando são graves. Não temos que esperar que a doença desenvolva, destrua tudo e os dentes caiam… Há vários sinais de alerta de que qualquer pessoa pode aperceber-se: halitose, ou mau hálito, é um deles, hemorragia gengival, dentes “a abanar”, isto é, com mobilidade, gengivas inchadas e muito vermelhas, etc.

Em geral há solução ou a pessoa acaba mesmo por ficar sem alguns dentes?

Depende de cada caso, pode acontecer. Mas também podem perder-se dentes por outros motivos, nomeadamente por fratura, infeção, ações mecânicas nefastas de próteses removíveis ou fixas, etc.

Não há medicamentos que a combatam?

Não existe “o comprimido milagroso” para combater as doenças periodontais. São doenças que dependem de múltiplos fatores que, na sua maioria, não estão ao nosso alcance modificar (componentes inflamatória, bacteriana, genética) exceto em relação ao controlo da causa principal: placa bacteriana.

Como é o tratamento?

Passa, primeiro, pela instrução e motivação do paciente para uma boa higiene. Sem isso nada feito. Depois, inicia-se uma fase não cirúrgica em que são realizados tratamentos às gengivas para remover toda a placa bacteriana que se consiga. Se a doença, após reavaliação, continuar ativa avança-se para a fase cirúrgica, em que temos acesso visual direto a todo o tecido de suporte do dente. Podemos fazer estes tratamentos à volta de um só dente, de seis dentes (um sextante) ou de oito dentes (um quadrante).

Esses tratamentos podem ser repetidos? Exigem medicação?

Podem ser repetidos se se verificarem determinados valores em parâmetros clínicos chave. A medicação necessária será para o período pós-operatório da fase cirúrgica. Na maior parte das vezes, prescrevo apenas analgésicos e anti-inflamatórios.

São dolorosos?

Não. São sempre realizados com anestesia local.

Custam centenas de euros.

São tratamentos muito específicos e requerem treino prático e preparação teórica por parte do médico para os realizar. Para além disso, há os custos envolvidos com o material utilizado, com os profissionais que nos assistem, tempo de gabinete, etc.

Um dos problemas é que o osso do maxilar se perde e, portanto, não haverá como colocar dentes falsos que substituam os que caem…

Depende das situações. Poderemos colocar implantes desde que a doença esteja controlada, em situações em que ainda haja osso maxilar suficiente.

Não há já impressoras 3D que possam criar esse osso?

Um dia, tenho a certeza que isso será possível. Atualmente ainda não.

A doença pode ter consequências para os outros? Um beijo apaixonado permite o contágio?

Não. As doenças periodontais não são contagiosas.

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Autor
delas
Referência
Carla Macedo

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