Suplementos na adolescência. Vale a pena tomá-los?Notícias de Saúde

Sábado, 07 de Março de 2015 | 39251 Visualizações

A prescrição de vitaminas e minerais com o propósito de estimular o apetite ou combater o cansaço é uma recomendação clássica e quase do senso comum. A prática está particularmente enraizada em crianças e adolescentes, mas não é unânime entre os profissionais e há muitas dúvidas quanto aos seus benefícios.

“O meu filho não anda a alimentar-se bem” ou “o meu filho anda cansado e sem energia, vou pedir ao médico que lhe receite umas vitaminas”. A frase é quase inevitável: independentemente da idade dos filhos, a falta de apetite ou de energia alimenta a ansiedade e preocupação dos pais. Contudo, se o médico assistente optar por não dar vitaminas ao seu filho, não pense que o especialista está a negligenciá-lo ou a proceder erradamente. Não receitar suplementos poderá ser a atitude mais correta a tomar.

As vitaminas e os minerais desempenham um importante papel na obtenção de energia e na manutenção do bem-estar no nosso dia-a-dia. Ao ajudarem a proteger o sistema imunitário, apresentam benefícios para a saúde cada vez mais relevantes, nomeadamente durante a adolescência, altura em que as necessidades nutricionais e energéticas aumentam significativamente. De acordo com a Organização Mundial de Saúde, esta fase da vida caracteriza-se por um pico de crescimento, apenas comparável ao que se verifica no primeiro ano de vida, além de um grande aumento de massa óssea e muscular, bem como do desenvolvimento pubertário. Portanto, é fundamental que o aporte nutricional consiga fazer face às exigências e necessidades acrescidas típicas desta etapa.

Hugo Faria, pediatra especializado em medicina da adolescência, explica-nos que “este pico de crescimento implica um aumento das necessidades diárias de algumas vitaminas e minerais (cálcio, ferro, vitamina D, Vitamina B12, B6, folato entre outros), mas não significa necessariamente que há necessidade de utilização de suplementos”. A mesma opinião é partilhada por José Agostinho Santos, médico de medicina geral e familiar, que nos diz que “o facto de esta ser uma etapa com bastantes particularidades foi provavelmente o gerador de uma ideia, algo enraizada atualmente, de que a suplementação rotineira para o corpo em desenvolvimento seria necessária ou útil. Porém, esta ideia não tem evidência científica de suporte”. 

Assim sendo, como é que se pode garantir que o organismo do adolescente recebe todos os nutrientes de que necessita para acompanhar o ritmo e o entusiasmo desta etapa da vida? A resposta não podia ser mais simples: através de uma alimentação equilibrada, completa, rica em vitaminas e minerais, e de um estilo de vida não-sedentário. 

Uma fase de mudanças

No entanto, há um problema que se coloca nesta fase da vida. Para além das necessidades nutricionais e energéticas acrescidas, o comportamento e os hábitos dos adolescentes alteram-se profundamente – os pais que o digam. Procuram uma maior independência, relacionam-se com os amigos de outra forma e o convívio com os seus pares pauta-se, geralmente, por novos hábitos alimentares, que passam pelo consumo de refrigerantes e da típica fast food, como os hambúrgueres e as pizas. 

Esta mudança no estilo de vida e a adoção de hábitos alimentares inadequados pode conduzir a carências de vitaminas e minerais, trazendo sérias consequências para a saúde. Durante a adolescência há um grande número de vitaminas e minerais que os jovens precisam não só para que possam alcançar todo o seu potencial de crescimento, mas também como forma de prevenir o aparecimento de algumas doenças crónicas da idade adulta, como a osteoporose. 

É o caso do cálcio – do qual os produtos lácteos são uma fonte importante – e da vitamina D que são fundamentais para a formação óssea, uma vez que é no final da adolescência que atinge o seu máximo. “Atualmente, está recomendado o consumo diário de 250 a 500 mL de leite nesta fase da vida”, revela Hugo Faria, sublinhando que de forma geral não existe necessidade de suplementação de cálcio.

Já sobre a vitamina D, o especialista em medicina do adolescente refere que “algumas sociedades recomendam a suplementação diária com vitamina D nos adolescentes, embora esta não seja uma recomendação consensual nos adolescentes saudáveis, com uma alimentação equilibrada e que vivem em regiões com exposição solar, como é o caso de Portugal”.

Outro mineral que merece atenção nesta fase é o ferro, uma vez que o grande aumento da massa muscular e do volume de sangue circulante aumenta as suas necessidades, sendo frequente, por exemplo, o aparecimento de anemias ferropénicas nas raparigas adolescentes – uma condição causada também pelo aumento das perdas sanguíneas devido aos períodos menstruais.

Nesse sentido, a nutricionista Susana Almeida refere que “mais importante do que os pais preocuparem-se com os suplementos alimentares que os filhos devem ou não tomar, estes devem preocupar-se com a educação alimentar, ou seja, em providenciar hábitos alimentares saudáveis”. 

Segundo vários estudos sobre a alimentação das crianças e dos adolescentes portugueses, iniciam-se desde muito cedo hábitos alimentares não saudáveis que irão prevalecer ou condicionar toda a vida adulta. Desta forma, como a nutricionista constata, “existem várias coisas que se pode melhorar na alimentação dos adolescentes (e restantes faixas etárias), antes de gastarmos dinheiro em suplementos alimentares”.

Promova hábitos saudáveis

Para ajudar o adolescente a ter uma alimentação equilibrada, Susana Almeida considera essencial incentivar práticas saudáveis como o pequeno-almoço e o consumo de sopa. “Insista com o seu jovem para começar o dia com um pequeno-almoço saudável! O pequeno-almoço está associado à ingestão de nutrientes essenciais, a um peso normal e melhor rendimento escolar. As crianças e jovens que ingerem regularmente o pequeno-almoço, apresentam benefícios adicionais ao nível da atenção, concentração, memória e desempenho escolar”, afirma a nutricionista.

Por sua vez, a sopa disponibiliza quantidades significativas de nutrimentos e de outras substâncias importantes para o organismo, que nunca chegariam a ser absorvidas de outra forma, pois, em muitos casos, “a única forma de um adolescente comer hortícolas e tirar proveito dos seus benefícios é através da sopa”, refere a especialista. Além de ser económica e prática, a sopa é um alimento ideal para qualquer idade.

Em todo o caso, os três especialistas são unânimes: a suplementação só está indicada para situações específicas de determinadas doenças ou em casos de carência nutricional e deve ser feita sempre sob orientação médica. Até porque, ao contrário do que se pensa, vitaminas a mais podem realmente fazer mal.

Atenção ao uso indiscriminado!

Apesar de serem recomendados pela maioria dos médicos apenas em casos especiais, há cada vez mais adolescentes a tomar vitaminas para combater o cansaço e aumentar o desempenho cognitivo. Com o avançar do ano letivo o rendimento tende a diminuir e, a dada altura, sobretudo em épocas de exames, os pais ficam preocupados e acabam por recorrer aos médicos de família ou a nutricionistas em busca de uma solução.

No entanto, apesar das suas boas intenções – os pais querem sempre o melhor para os filhos –, “a suposição de que existe necessidade ou eficácia comprovada destes suplementos para fadiga intelectual ou para auxílio de memória não tem base científica consistente”, afirma José Agostinho Santos, salientando a escassez de investigação imparcial, rigorosa e de qualidade.

O médico de família reconhece que a fase dos exames, por exemplo, pode ser indutora de cansaço mental, mas considera que “é algo tão compreensível como uma maratona de 30km induzir um cansaço físico”. Na sua opinião, para evitar o desgaste intelectual acrescido, o melhor que os estudantes devem fazer é desenvolver um método de estudo fragmentado ao longo do ano. “Não parece haver estudos que comprovem inequivocamente que o estudo fragmentado (juntamente com o carinho incentivador dos pais!) seja eficaz no sucesso escolar, mas sairá certamente mais barato do que uma suplementação vitamínica cuja carência de estudos também prevalece...”, remata em tom jocoso.

Por sua vez, Hugo Faria considera que o melhor conselho que se pode dar a um adolescente – ou pai – que manifeste estas preocupações “é relembrar-lhe a importância de manter, mesmo nos momentos mais exigentes, uma alimentação equilibrada, hábitos de sono saudáveis (9-10 horas por dia) e uma atividade física regular e recompensadora”.

Outro tipo de suplementação cujo consumo tem vindo a aumentar entre adolescentes e está a preocupar os médicos, são os suplementos alimentares que prometem aumentar a massa muscular e tonificar rapidamente o corpo. Como o pediatra sublinha, uma das grandes preocupações face a estes produtos, “é a presença de substâncias hormonais, ilegais, potencialmente prejudiciais para a saúde dos adolescentes”, relembrando que o seu uso ocorre, muitas vezes, sem a correta orientação de um profissional de saúde. 

Contudo, existem situações que podem necessitar de cuidados alimentares especiais, como a prática de desporto de alta intensidade, mas devem ser avaliadas por “um profissional de saúde habilitado com experiência em saúde do adolescente e do desportista”, acrescenta.

Para além dos danos para a saúde física, associado a este tipo de suplementos existem também prejuízos a nível psicológico que dizem respeito à preocupação excessiva com estética corporal.  Este facto “poderá subjugar o adolescente a uma espiral de autoexigências para cumprimento dos seus pressupostos estéticos, levando-o à frustração e a baixa autoestima no momento em que a suplementação não tem o efeito que deseja”, adverte José Agostinho Santos.

O papel que os pais podem desempenhar nesta fase é fundamental, uma vez que o seu apoio é imprescindível para que o jovem tenha quer uma alimentação mais adequada, quer um estilo de vida ajustado às suas necessidades e exigências do quotidiano. No fim de contas, os suplementos vitamínicos não substituem os hábitos de vida saudáveis, nomeadamente uma alimentação equilibrada e variada.

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