Saltos altos: que risco para a saúde?Notícias de Saúde

Sábado, 23 de Agosto de 2014 | 318 Visualizações

Fonte de imagem: Shutterstock

Sinónimo de elegância e feminilidade, os sapatos de salto alto são os preferidos pela maioria das mulheres. Ganha-se uns centímetros em altura e no ego mas, com o tempo, podem transformar-se em verdadeiros inimigos.

É uma relação de amor/ódio a que as mulheres vivem com os saltos altos. Por um lado, não vivemos sem eles, mas, por outro, eles não nos facilitam a vida. É verdade que nos tornam mais elegantes, mais altas, realçam-nos o corpo e melhoram a nossa autoestima mas... Quantas vezes não reclamou de dores nos pés por estar de salto alto? Ou não se viu ansiosa para descalçar esse mesmo par durante uma festa? Ou até mesmo no trabalho?

Mulheres que desfilam sobre saltos altos, durante horas e todos os dias, são verdadeiramente dignas de um prémio. No entanto, estas trapezistas de salto não percebem muitas vezes os riscos que o uso de tal elegância pode trazer. Não se trata somente do inconveniente de se sustentar em saltos agulha e de estar mais suscetível a torcer um pé. Os perigos do uso continuado deste calçado podem ser bem mais graves.

Sempre que se calçam sapatos com salto alto, o nosso centro de gravidade é desviado e o corpo é obrigado a ajustar-se de forma a compensar este desequilíbrio. E ao alterarem a postura e a marcha, os saltos altos podem causar problemas à coluna, ancas, joelhos ou tornozelos.

Nuno Neves, ortopedista, explica-nos que "por estarem em flexão permanente, a carga é concentrada na parte anterior dos pés, que é sujeita a uma pressão excessiva que se transmite igualmente aos tornozelos e joelhos. Com o tempo os músculos e articulações, quer dos membros inferiores, quer das costas, são hipersolicitados e surgem problemas: dor lombar, dor nas pernas e pés, predisposição a artrose dos joelhos, dedos em garra e joanetes, retração".

É neste sentido que os saltos altos representam, para muitas mulheres, um complicado dilema: transparecer elegância ou suportar estoicamente as dores e problemas por eles causados?

Não há bela sem senão...

Quanto maior for a altura dos sapatos, menor será a superfície de apoio do pé, dando origem a uma concentração do peso do corpo na zona dos dedos. Quando usados sistematicamente, os saltos altos propiciam uma pressão maior nos músculos da frente da perna, que ficam mais longos, enquanto os de trás ficam mais curtos. Isto explica, por exemplo, a sensação de dor que uma mulher habituada a usar saltos altos sente quando resolve calçar sapatos rasos, como uns ténis.

E, de facto, como constata o ortopedista, a dor de costas é o sintoma mais comum de quem usa frequentemente saltos altos. "Habitualmente [a lombalgia (dor de costas)] é mais intensa ao final do dia, ou quando se passa muitas horas em pé. Para quem tem outros problemas pré-existentes, como hérnia discal ou estenose (aperto), o uso de sapatos altos pode aumentar ou precipitar as queixas habituais", reconhece Nuno Neves.

É comum surgirem também dores frequentes nos pés, principalmente próximo dos dedos e dos tornozelos, calosidades, vermelhão e, a longo prazo, o uso de sapatos de salto alto, principalmente se forem pontiagudos e estreitos, propicia o aparecimento de unhas encravadas, joanetes, calos, dedos em martelo, entre outras deformações.

Para além de problemas na coluna, nas articulações e nos ossos, os saltos, quando utilizados por longos períodos, podem igualmente dar origem a varizes e outras doenças venosas. Isto porque, como nos explica Nuno Neves, "alguns estudos mostram que o uso de sapatos altos reduz a contração dos músculos das pernas, levando a um menor retorno sanguíneo e consequentemente predispondo ao aparecimento ou agravamento de varizes".

Qual o calçado ideal?

Mas se o uso continuado de saltos altos é perigoso, também a opção por sapatos completamente rasos, como as sabrinas, não é absolutamente segura. É verdade que, quando comparadas com os sapatos de salto alto, apresentam menos riscos para a saúde, "mas há outros fatores a ter em atenção quando se escolhe um sapato", alerta o ortopedista.

A sola superfina deste tipo de calçado não absorve o impacto do pé no chão e pode levar a um alongamento excessivo dos ligamentos e tendões da perna, causando algum desconforto. Por essa razão, Nuno Neves revela que "um pequeno salto é perfeitamente aceitável e até preferido por algumas mulheres que sofrem de alguma retração do tendão de Aquiles".

Assim sendo, qual deverá ser a altura do salto? Nuno Neves não tem dúvidas: "idealmente, o tacão não deve ultrapassar os três centímetros". Porquê? Simplesmente, porque quanto mais alto for o salto, maior será o desequilíbrio criado e a pressão exercida sobre a parte anterior do pé. O ortopedista explica-nos que "se para um tacão de 2 centímetros a pressão aumenta 22 por cento, para um tacão de 6 centímetros essa pressão aumenta até 76 por cento".

E quanto ao tipo de sapato? Qual o calçado mais adequado? Um dos grandes erros que se comete é não usar o tamanho certo para o pé. De acordo com o especialista, "os pés são todos diferentes pelo que o sapato deve ser perfeitamente adaptado – nem apertado nem largo –, para evitar que o pé escorregue, colocando ainda mais pressão na parte anterior".

Devem também ser evitados os saltos finos, tipo stilletos, pois a pressão nos pés é maior e logo há mais probabilidades de ter dor. Em alternativa, prefira saltos grossos e compensados porque dão maior sustentação e equilíbrio.

Conselhos para minimizar o estrago

Para quem não dispensa os sapatos altos, o ortopedista Nuno Neves deixa algumas medidas que podem prevenir ou reduzir a incidência de problemas:

- Evite o uso de saltos altos por períodos prolongados;
- Faça alongamentos regulares dos músculos dos membros inferiores;
- Limite a altura dos tacões a 4-5 centímetros, de preferência de base larga;
- Compre os sapatos à tarde, quando os pés estão habitualmente mais inchados;
- Evite modelos demasiado apertados;
- Opte por palmilhas de couro para evitar que os pés derrapem;
- Varie o tipo de sapato frequentemente.

Por maior que seja o progresso e a tecnologia, a verdade é que ainda está por inventar o calçado ideal. E de cada vez que o cansaço, o desconforto e a dor nos pés nos deixam desoladas, lá recordamos que o pé foi feito para andar descalço... No entanto, se tiver em consideração as recomendações que aqui lhe deixamos, pode continuar a estar na moda sem colocar a sua saúde em risco.

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Autor
MSN
Referência
Escrito porCarla Mateus, com entrevista a Nuno Neves, ortopedista