O vírus da Sida HIV-1 começou em Kinshasa há 100 anosNotícias de Saúde

Sexta, 03 de Outubro de 2014 | 60 Visualizações

Fonte de imagem: Reuters

A Sida surgiu nos anos 20 do século passado, em Kinshasa, atual República Democrática do Congo, conclui um estudo hoje publicado pela revista Science e que teve dois portugueses na equipa que o fez.
 
Com o título “The early spread and epidemic ignition of HIV-1 in human populations” (“O início da disseminação e propagação epidémica do HIV-1 em populações humanas”), o extenso artigo vem provar que o primeiro vírus que provoca a Sida, o HIV-1, surgiu no antigo Congo Belga, uma novidade em relação a todos os estudos sobre a epidemia.
 
Nuno Faria, da Universidade de Oxford, Reino Unido, é o primeiro autor do estudo, que fez a análise genética de centenas de amostras de vírus (filogenética), conseguindo-se provar, perante outras hipóteses em África, que foi em Kinshasa que tudo começou, há quase um século.
 
João Sousa, o outro investigador português dos 14 que assinam o artigo da Science, investigador da Universidade Católica de Lovaina (Bélgica), também ligado ao Instituto de Higiene e Medicina Tropical (Universidade Nova de Lisboa), explicou à Lusa que, no estudo, se conseguiu provar que o vírus de Kinshasa era o mais antigo.
 
Apesar de o vírus ter origem em chimpanzés dos Camarões (de um tipo que não há no Congo), terá passado para os humanos em algum episódio de caça e teria chegado a Kinshasa num ser humano, explicou João Sousa à Lusa.
 
O investigador, que para o artigo fez a pesquisa dos fatores de risco, é de opinião de que as doenças sexualmente transmissíveis, como a sífilis, que na altura grassava em Kinshasa, terão ajudado muito a propagar o HIV-1.
 
O antigo Congo Belga tornou-se independente em 1960 e logo a seguir imigrantes do Haiti, nomeadamente professores, foram destacados para o Congo, pela ONU, para ajudar no desenvolvimento do país. Esses profissionais estiveram sobretudo em Kinshasa, onde alguns terão sido infetados, conta João Sousa.
 
E explica que no regresso a casa levaram com eles o vírus. “No Haiti o vírus propagou-se” e, em finais dos anos 60 e início dos anos 70, o Haiti tinha uma grande indústria de turismo sexual, especialmente procurada pela comunidade homossexual dos Estados Unidos, o que levou a que os primeiros casos da doença tenham sido reportados junto de homossexuais norte-americanos.
 
Explicações de João Sousa são suportadas em análises genéticas de vírus recolhidas no Haiti e na informação que está “escondida” no material genético, como diz à Lusa. E explica também que, desde que se começou a desenvolver em Kinshasa até ser descoberto nos Estados Unidos, o vírus não deixou de se propagar
.
Nos anos 80 teria já infetado centenas de milhares de pessoas e, quando surgiu nos Estados Unidos, os meios de diagnóstico eram mais sofisticados, lembra o investigador, segundo o qual o trabalho de investigação vai continuar.
 
Questionado pela Lusa, admite que se possa um dia descobrir que o vírus afinal surgiu antes dos anos 20. Para já, provou-se que começou em Kinshasa, há quase um século.

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Autor
Lusa
Referência

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