Neurónios das mucosas produzem uma substância que ativa as células imunitáriasNotícias de Saúde

Sábado, 16 de Setembro de 2017 | 9 Visualizações

Fonte de imagem: Healthline

Cientistas do Centro Champalimaud e do Instituto de Medicina Molecular descobriram que são os neurónios localizados nas mucosas que, mal detetam a presença no organismo de uma infeção, produzem uma substância que funciona como um "chuto de adrenalina" para as células imunitárias. Assim, sob o efeito deste sinal, as células imunitárias ficam imediatamente em alerta e prontas para lutar contra infeções e reparar os tecidos danificados. Estes resultados, totalmente inéditos, foram recentemente publicados online na revista “Nature”.
 
A maior parte das células nervosas encontra-se no cérebro e arredores, no sistema nervoso central, com os neurónios a projetar os seus axónios para todos os tecidos do corpo, através da espinal medula, e as células gliais a manter a coesão do tecido neuronal. Mas também existem, por todo o organismo, células nervosas mais periféricas. Estas são muito numerosas no intestino, tendo sido apelidadas de "segundo cérebro".
 
O que fazem estas células nervosas periféricas? Começa a perceber-se hoje que elas são extremamente importantes para o organismo conseguir desencadear respostas imunitárias adequadas.
 
Já em 2016, Henrique Veiga-Fernandes e os seus colegas, então no Instituto de Medicina Molecular, tinham publicado, também na “Nature”, um estudo que mostrava que, no intestino, existem células da glia que incitam um tipo de células imunitárias, designadas ILC3, a produzir substâncias contra as infeções bacterianas.
 
As células imunitárias estudadas por Veiga-Fernandes – innate lymphoid cells, ou ILC, em inglês – também são especiais: nascemos com elas; não são produzidas em reação a uma imunização, por exemplo, através da vacinação. “As ILC só foram descobertas em 2010, mas são muito antigas do ponto de vista evolutivo. Existem até nas lampreias!”, diz Veiga-Fernandes. As lampreias pertencem a uma linhagem extremamente ancestral de animais.
 
Há vários tipos destes linfócitos inatos. No estudo de 2016, os cientistas tinham analisado o comportamento das ILC3 do intestino – e o seu “diálogo” com as células da glia aí localizadas. No estudo agora publicado, também liderado por Veiga-Fernandes, o trabalho incidiu sobre células linfoides inatas de outro tipo – as ILC2.
 
As células ILC2 produzem substâncias que são essenciais, em particular para as respostas imunitárias contra parasitas, tais como as lombrigas. “Encontram-se normalmente em abundância nas mucosas do intestino, pulmões e pele”, locais que funcionam como barreiras físicas do corpo, explica Veiga-Fernandes.
 
E desta vez, a equipa mostrou que estas células imunitárias não seriam capazes de exercer os seus efeitos protetores contra as infeções sem estabelecer um “diálogo” com os neurónios residentes nestes locais.
 
O estudo traz “duas grandes novidades”, diz Veiga-Fernandes. Por um lado, explica, “são os neurónios que definem a função destas células. Ora, ninguém imaginava que o sistema nervoso pudesse coordenar, comandar e controlar, por todo o organismo, a resposta imunitária”. Por outro lado, acrescenta, “trata-se de uma das respostas imunitárias mais rápidas e potentes jamais vistas”. A título comparativo, este estímulo neuronal agora descoberto induz uma resposta imunitária em poucos minutos, enquanto a resposta imunitária decorrente de uma vacinação demora várias semanas a tornar-se efetiva.
 
Os cientistas demonstraram ainda que os neurónios detetam os produtos secretados pelos parasitas que infetam o organismo e, quando isso acontece, produzem NMU (neuromedina U). Por sua vez, a NMU atua vigorosamente nas ILC2, gerando assim uma resposta protetora em poucos minutos.
 
Serão estes resultados extrapoláveis ao ser humano? “No ser humano, as células ILC2 também possuem recetores da neuromedina U”, responde Veiga-Fernandes. “Mas ainda estamos longe de perceber como poderemos usar esta 'bomba' neuroimunológica em segurança; por enquanto estamos ao nível da investigação básica", acrescenta.

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Referência
Estudo publicado na revista “Nature”