Luto na infânciaNotícias de Saúde

Quarta, 10 de Junho de 2015 | 43 Visualizações

A morte de um ente querido pode constituir um trauma mais ou menos grave para a criança. Tudo depende do modo como a família lida com a situação.

Joana era a menina dos olhos do pai. Todos os dias, era ele que a ia buscar ao infantário e iam para casa, felizes entre brincadeiras e risos. Ele às vezes ralhava com ela, é certo, sobretudo quando fazia birras à hora do jantar. Contudo, não dispensavam o beijinho de boa noite! Um dia, quando Joana saiu do infantário era a, a Dona Anita que estava à sua espera. Lembra-se de ter perguntado pelos pais e a senhora ter desviado o olhar e respondido muito vagamente. Ficou a dormir em casa da Dona Anita e ela levou-a ao infantário. A educadora e aas auxiliares deram-lhe muitos beijinhos e perguntaram se ela estava bem. Não percebeu nada … afinal de contas não estava doente, porque estariam preocupadas? No dia seguinte, foi a mãe que a foi buscar. Tinha um ar abatido e abraçou-a muito fortemente. “O pai?”, Perguntou. “O pai foi viajar…”, respondeu a mãe. Passaram-se seis meses. Joana todos os dias pergunta pelo pai e continua à espera que ele volte …

Elisabeth Kübler-Ross, psiquiatra de formação, foi uma das autoras que mais se dedicou à temática da morte e nos seus estudos desaconselha vivamente que sejam dadas explicações do tipo “Deus levou o pai porque ele era bom” ou “Deus levou o Henrique para o céu, por amar as crianças”. Associar a morte à bondade pode gerar uma mágoa contra a Entidade Divina e acordar um sentimento de profunda injustiça. Explicar que foi fazer uma viagem também é insensato.

A criança perguntará constantemente pelo dia da volta e, à medida que o tempo vai passando, o sentimento de abandono vai-se instalando. Até porque, em muitos casos, quando os pais são hospitalizados prometem que estarão de volta dentro em breve. Como a criança não foi levada a visitá-los durante a hospitalização, vai ficar à espera que se cumpra a promessa. Outra explicação utilizada, especialmente com relação a uma pessoa idosa, é dizer que foi dormir.

É certo que é apenas um modo figurativo de explicar os factos, mas as crianças não têm ainda a capacidade de o entender. Levarão à letra o que lhes é dito e não é de surpreender, que o ato de adormecer passe e ser uma atividade perigosa. A noite transforma-se num tormento, em que o sono é associado à morte. Daqui surgem os pesadelos e o medo do escuro. Não é raro que, no caso da morte de um dos pais, a criança tenha receio que o outro também morra. Esta angústia traduz-se frequentemente em comportamentos difíceis de entender. Se a reação é de tristeza, não existem dificuldades em identificar a dor subjacente, mas existem crianças que se tornam distraídas, hiperativas ou que têm súbitas explosões de agressividade. É a outra face da depressão, que como não é tão evidente, pode não ser imediatamente associada à perda.

Como abordar o tema?

Quando for altura de abordar este tema, os adultos têm que ter em conta que todas as crianças possuem já algumas ideias sobre o assunto. No decurso de suas curtas vidas, vão-se apercebendo de algumas situações, mais que não seja através do desaparecimento dos animais de estimação. A partir do que lhes é dito pelos adultos desenvolvem depois as suas próprias ideias.

Certo é que são poucas as pessoas que se sentem à vontade para falar com as crianças sobre a morte. Algumas optam por levá-las ao psicólogo, temendo que estejam traumatizadas com a situação. Contudo, convém acentuar, que não é a situação em si que é geradora do trauma mas sim todo o silêncio que por vezes a envolve. Não existem temas impossíveis de abordar. Alguns apenas exigem uma maior sensibilidade por parte dos adultos. Também não existem receitas que se possam aplicar em todos as situações. Cada caso é um caso e tem que ser tratado de modo diferente. Acima de tudo é importante que as crianças recebam informações imediatas e seguras sobre o que aconteceu. Um adulto deve disponibilizar-se para responder com a maior sinceridade às perguntas que forem sendo feitas.

Quando é um dos progenitores que morre, o outro sentir-se-á tão fragilizado que dificilmente será capaz de apoiar os filhos logo nos primeiros momentos. Por esse motivo, procurar o apoio dos familiares e amigos é fundamental para que o adulto se possa equilibrar emocionalmente e assim incluir os filhos no processo de luto.

Como podemos ajudar?

A ajuda que podemos dar a qualquer criança, jovem adolescente ou mesmo adulto, é partilhar os seus sentimentos. Deixar que fale, grite ou chore, se necessário. Irem ao cemitérios juntos e colocar flores sobre a campa, são atos simbólicos que facilitam o luto e ligam efetivamente as pessoas. Permitir que se fale normalmente sobre o falecido, recordando os momentos bons, é mantê-lo vivo na memória de todos. Se a criança quiser ver um filme onde está o pai/mãe que faleceu, não há motivos para o impedir.

É certo que causa alguma saudade e tristeza mas estas emoções/sentimentos fazem parte da vida e assim deverão ser encarados. Havendo informação e apoio, torna-se possível que as crianças se enlutem de uma forma tão sadia como os adultos mas há que saber dosear essa realidade.

É um pouco como falar de sexo a uma criança. Primeiro temos que perceber o que é que a criança já sabe sobre o assunto, para depois irmos dizendo à medida da necessidade de cada uma. Não vale a pena romancear o tema se a criança já souber de tudo. Assim sentir-se-á enganada, já que mais cedo ou mais tarde terá que perceber que o morto não voltará nunca! Depois é fornecer-lhes o apoio necessário para que viva o seu luto de uma forma saudável. Não ter um processo de luto adequado, pode mais tarde traduzir-se na incapacidade de estabelecer relacionamentos próximos, devido ao medo constante da perda.

As crianças devem ir ao funeral?

É sabido que é preferível chorar um morto que um desaparecido. A morte tem um local onde a veneração é passível de ser feita. O desaparecimento é a incerteza, o vazio total, o luto interminável. No caso de acidentes graves, em que algumas pessoas entram em coma e outras acabam por falecer, a situação é semelhante. Quando as pessoas saem do coma, ergue-se um vazio. Não conseguem assimilar o que aconteceu, nem iniciar um luto, uma vez que todas as cerimónias fúnebres já aconteceram e não existe um corpo que permita o teste da realidade. Muitos iniciam um processo de luto patológico, em que negam o sucedido e acreditam que a pessoa continua viva. É por este motivo que se aconselha a presença de toda a família nos rituais fúnebres. No caso das crianças, há que acompanhá-las de perto, mas permitindo-lhes que estejam presentes. A expressão da dor, varia de pessoa para pessoa e assim é também com as crianças. Algumas choram copiosamente, outras optam pelo silêncio. Constata-se que o pranto é tanto mais longo, quanto mais velha for a criança, possivelmente devido à consciência da irreversibilidade da situação.

O que os bebés sentem

A capacidade de as crianças se enlutarem sempre foi objeto de polémica, sobretudo nas escolas psicanalíticas. Alguns autores afirmam que o luto só pode ser vivido após a formação da identidade, que aconteceria na adolescência. Outros são de opinião que tudo está dependente da capacidade de aquisição da constância do objeto, que ocorre por volta dos seis meses. Autores mais recentes, defendem que os bebés fazem realmente o luto, só que este tem características diferentes do luto adulto. Se a pessoa em si é secundária para o bebé e, apenas interessa que as suas necessidades mais básicas sejam satisfeitas, a perda da mãe não será intensamente sentida, caso exista uma substituta. Mas, se o apego à mãe é adquirido por volta dos seis meses, é possível que o bebé sinta a diferença e viva o seu luto. Surgem, por vezes, regressões no desenvolvimento: voltam a fazer chichi na cama, querem usar chucha ou beber leite pelo biberão. Comportamentos caraterizados por excessiva dependência são também frequentes. Querem estar sempre agarrados aos pais e não vão brincar, sem ser ao pé destes. Podem ir buscar consolo num brinquedo ou cobertor velho que os passa a acompanhar para todo o lado.

Partilhar esta notícia
Autor
Pais
Referência

Notícias Relacionadas