Estudo científico ANIBES analisa a ingestão e fontes alimentares de ferroNotícias de Saúde

Terça, 06 de Junho de 2017 | 47 Visualizações

  • Em relação à idade, as maiores ingestões de ferro observaram-se nos adolescentes (11,4 mg/dia) e crianças (11,0 mg/dia) em comparação com adultos e idosos, que foram de 10,4 mg/dia e 10,2 mg/dia respetivamente
  • Os grupos de alimentos e bebidas com uma média de contribuição mais alta para a ingestão de ferro foram os cereais e derivados (27,4% em homens e 26,7% em mulheres), carne e derivados (22,7% em homens e 19,8% em mulheres) e o grupo de verduras e hortaliças (10,3% e 12,4% de ingestão de ferro em homens e mulheres respetivamente)
  • O estudo concluiu que a zona centro do norte de Espanha e a zona noroeste apresentavam ingestões diárias de ferro superiores, enquanto a zona centro da península, as Ilhas Canárias e a zona sul tinham os consumos de ferro mais baixos
  • Em Portugal e, de acordo com o mais recente relatório do IAN-AF, estima-se que quase 9% da popoulação esteja abaixo das necessidades médias de ferro

A revista científica Nutrients publicou recentemente a investigação “Ingestão de ferro e fontes alimentares na população espanhola: resultados do estudo ANIBES”. O propósito deste estudo pioneiro, coordenado pela Fundación Española de Nutrición (FEN), foi o de avaliar a ingestão alimentar de ferro da população espanhola segundo a idade e o género, assim como analisar a contribuição de diferentes grupos e subgrupos de alimentos e bebidas como fonte alimentar desse mineral.

De igual modo, o trabalho analisou a prevalência da adequação da ingestão de ferro (% de população acima dos 80% da ingestão diária recomendada) seguindo a ingestão alimentar de referência da Autoridade Europeia para a Segurança Alimentar (EFSA, 2015) e as recomendações da ingestão diária de ferro para a população espanhola revistas por Moreiras O. et al em 2015.

A este respeito, a proporção de adequação à ingestão total de ferro das mulheres da população ANIBES foi de 17,0% e 27,3% segundo as referências espanholas e da EFSA respetivamente e de 57,3% e 77,2% no caso dos homens.

Em relação à idade, as maiores ingestões de ferro observaram-se nos adolescentes (11,4 mg/dia) e crianças (11,0 mg/dia) comparativamente com os adultos e idosos, com 10,4 mg/dia em cada caso.

Ingestão de ferro (mg/dia) e prevalência de adequação (% de população acima de 80% da IDR*) na população ANIBES por grupos e idade definida segundo as referências espanhola e da EFSA, 2015

Grupos de idade

Ferro (mg/dia)

% acima do 80% IDR Moreiras O. et al, 2015 (Espanha)

% acima do 80% IDR EFSA, 2015

Crianças

 

 

 

Total n=213

11,0 (9,2 – 12,8)

40,9

77, 9 ***

   Plausível n= 120

12,2*** (10,4 – 14,0)

54,2

94,2 ***

   Não é plausível n=93

9,2 (8,0 – 11,1)

23,7

57,0 **

Adolescentes

 

 

 

Total n=211

11,4 (9,1 – 13,4)

15,2

73,0 ***

   Plausível n=76

13,3*** (11,6 – 15,4)

27,6

90,8 ***

   Não plausível n=135

10,0 (8,1 – 11,8)

8,2

63,0 ***

Adultos

 

 

 

Total n= 1.655

10,4 (8,4 – 12,9)

36,9

47,9 ***

   Plausível n=433

13,0*** (11,0 – 15,6)

47,8

63,3 ***

   Não plausível n=1.222

9,6 (7,8 – 11,8)

33,0

42,5 ***

Idosos

 

 

 

Total n=206

10,2 (7,9 – 12,6)

52,9

68,0

   Plausível n=45

12,7*** (10,9 – 17,2)

88,9

100,0

   Não plausível n=161

9,5 (7,5 – 11,5)

42,9

59,0

*IDR: Ingestão Diária Recomendada

Os valores são a média (intervalo interquartil) por grupo.

*** p<0,001 diferença de registos completos vs. Registos incompletos (Teste U de Mann-Whitney).

## p<0,001 diferenças entre as referências de Moreiras O. et al, 2015 e EFSA, 2015 (Teste McNemar para proporções emparelhadas).

### p<0,001 diferenças entre as referências de Moreiras O. et al, 2015 e EFSA, 2015 (Teste McNemar para proporções emparelhadas).

Em Portugal e, de acordo com os resultados mais recentes do IAN-AF, estima-se que quase 15% das mulheres esteja abaixo das recomendações para a ingestão de ferro, contra apenas 2,4% dos homens:

Percentagem de indivíduos que não atingem ou excedem os valores diários de referência por total nacional e por sexo

 

 

VDR

Nacional

Mulheres

Homens

Água

AI

59,0

56,9

61

Sódio

UL

75,9

65,5

85,9

Ferro

AR

8,7

14,9

2,4

Ferro (grávidas)

 

 

2,7

 

Magnésio

AI

54,0

56,1

51,8

  1. AI – Adequate Intake
  2. UL – Tolerable Upper Intake Level
  3. AR – Average Requirement

Segundo o Professor Doutor Gregorio Varela-Moreiras, Presidente da Fundación Española de la Nutrición (FEN), Diretor do Grupo de Investigación en Nutrición y Ciencias de la Alimentación (CEUNUT) e Catedrático de Nutrición y Bromatología de la Universidad CEU San Pablo de Madrid “são muitos os fatores de alimentação que podem dificultar ou promover a absorção deste mineral, mas o mais importante é a necessidade sistémica de ferro: num estado de deficiência de ferro, este é mais absorvido, e é menos absorvido quando os depósitos do mineral estão completos”.

Em relação aos mecanismos de absorção, existem dois tipos de ferro dentro de uma alimentação normal: o ferro heme e o ferro não heme. O ferro heme é entre 2 a 6 vezes mais bio disponível na dieta do que o ferro não heme, “sendo o grupo da carne e seus derivados a fonte maioritária da alimentação. A este respeito também é importante ter em conta as diversas recomendações de saúde pública que aconselham a moderar a ingestão de carne e seus derivados. A respeito do ferro não heme, os cereais são a fonte maioritária seguido de vegetais, frutas e legumes, ainda que devamos ter em conta que a sua biodisponibilidade pode ver-se comprometida neste caso” continua o Prof. Doutor Varela-Moreiras.

Para este especialista, “dispor de informação detalhada sobre as fontes alimentares de ferro é essencial para um melhor conhecimento das vantagens e fraquezas da qualidade da dieta espanhola e para identificar grupos vulneráveis da população”. A este respeito, o estudo reconhece que segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), a prevalência de anemia na população espanhola oscila entre 14% e 18% em crianças e mulheres em idade reprodutiva, respetivamente.

Contribuição de alimentos e bebidas para a ingestão de ferro

Em relação à contribuição de alimentos e bebidas para a ingestão de ferro, os grupos com uma média de contribuição mais alta à ingestão alimentar são, tanto em homens como mulheres, em primeiro lugar cereais e derivados (27,4% em homens e 19,8% em mulheres). Em ambos os casos, a ingestão foi significativamente superior na população masculina. Em terceiro lugar, o grupo verduras e hortaliças reportou 10,3% e 12,4% de ingestão de ferro em homens e mulheres respetivamente, sendo significativamente superior em mulheres. Em conjunto, os três grupos de alimentos anteriores representam 60% ou mais da ingestão de ferro na população do estudo científico ANIBES.

Por último, a respeito das ingestões de ferro atendendo à distribuição geográfica de Espanha, “o estudo observou que a zona centro do norte de Espanha e zona noroeste apresentavam ingestões diárias de ferro superiores, enquanto a zona centro da Península, as Ilhas Canárias e a zona sul têm os consumos de ferro mais baixos,” conclui o Prof. Dr. Varela-Moreiras.

Samaniego-Vaesken ML, Partearroyo T, Olga J, Aranceta-Bartrina J, Gil A, González-Gross M, Ortega RM, Serra-Majem LI, Varela-Moreiras G. Iron Intake and Dietary Sources in the Spanish Population: Findings from the ANIBES Study. Nutrientes, 2017;9:203;doi:10.3390/nu9030203.

Inquérito Alimentar Nacional e de Atividade Física (IAN-AF 2015-2016), Anexo 2 – Tabelas Ingestão Nutricional, Tabela A2.11 - Percentagem de indivíduos que não atingem ou excedem os valores diários de referência por total nacional e por sexo.

Comité Científico do Estudo ANIBES

  • Prof. Dr. Javier Aranceta-Bartrina, Presidente do Comité Científico da Sociedad Española de Nutrición Comunitaria (SENC), Diretor Clínico da Fundación para la Investigación Nutricional (FIN) e Professor de Nutrición Comunitaria da Universidad de Navarra
  • Prof. Dr. Ángel Gil, Presidente da Fundación Iberoamericana de Nutrición (FINUT), Diretor do Grupo Científico BioNit e Catedrático de Bioquímica e Biologia Molecular da Universidad de Granada
  • Prof.ª Dra. Marcela González-Gross, Vice-Presidente da Sociedad Española de Nutrición (SEÑ), Responsável do Grupo de InvestiGación imFine e Catedrática de Nutrición Deportiva y Fisiología del Ejercicio de la Universidad Politécnica de Madrid
  • Prof.ª Dra. Rosa M.ª Ortega, Diretora do Grupo de Investigación VALORNUT y Catedrática de Nutrición de la Universidad Complutense de Madrid
  • Prof. Dr. Lluìs Serra-Majem, Presidente de la Fundación para la Investigación Nuticional (FIN), Presidente da Academia Española de la Nutrición (AEN), e Catedrático de Medicina Preventiva y Salud Pública de la Universidade de Las Palmas de Gran Canaria
  • Prof. Dr. Gregorio Varela-Moreiras, Presidente da Fundación Española de la Nutrición (FEN) e Diretor do Grupo Investigación Nutrición y Ciencias de la Alimentación (CE-UNUT) e Catedrático de Nutrición y Bromatología de la Universidad CEU San Pablo de Madrid

Ficha técnica do estudo ANIBES

Desenho: Amostra representativa da população residente em Espanha (excluindo Ceutay Melilla)

Amostra: Indivíduos entre 9 e 75 anos que vivam em municípios com mais de 2.000 habitantes

Universo: 37 milhões de habitantes

Amostra aleatória mais reforço: 2.285 participantes*

*Considerou-se um reforço no tamanho da amostra com o objetivo de ter uma correta representação

O protocolo final do estudo científico ANIBES foi aprovado previamente pelo Comité Ético de Investigação Clínica da Comunidade de Madrid (Espanha).

 

 

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Banco da Saúde
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