Doença dos legionários atinge três vezes mais homens que mulheresNotícias de Saúde

Terça, 11 de Novembro de 2014 | 32 Visualizações

A análise de vigilância epidemiológica entre 2004 e 2013 aponta para uma prevalência residual em menores de 20 anos. Homens com mais de 50 anos e fumadores são um grupo de risco.

Com o país de olhos postos no surto de legionella, nos cinco mortos e 233 infetados até ao momento, e uma origem ainda incógnita, olhemos para trás. Desde o início do Programa de Vigilância Epidemiológica Integrada da Doença dos Legionários, 2012 foi o ano mais mortífero com 12 óbitos e 132 casos confirmados. Registaram-se 153 internamentos.

Os dados da análise epidemiológica da Direção-Geral de Saúde (DGS) entre 2004 e 2013 revela uma prevalência no sexo masculino. Dos 962 casos de doença dos legionários notificados em Portugal, foram identificados 752 homens e 210 mulheres.

"Em todos os anos em análise a proporção de indivíduos do sexo masculino foi sempre superior a 2/3 do total", diz o relatório concluído em agosto passado. Significa que a "razão de masculinidade foi de 3,58 homens por mulher". 

No total dos anos em referência, contabilizaram-se 86 mortes hospitalares e 1088 internamentos. 

Quanto ao surto detetado na última sexta-feira, nenhuma informação sobre identidade das vítimas ou dos infetados foi divulgada nos variados balanços que a Direção-Geral de Saúde tem realizado desde o fim de semana. 

Expresso noticiou em primeira mão na noite desta segunda-feira que há um caso em estado grave no Hospital Amadora Sintra. Trata-se de um doente do sexo masculino e não esteve em Vila Franca de Xira, o que baralha as informações  veiculadas pela DGS. Até ao momento, as autoridades de saúde procuravam um denominador comum e a ligação entre os casos permitia chegar a uma possível localização do foco em Vila Franca de Xira, por residência ou passagem pelo concelho.

24 casos abaixo dos 30 anos 

Em quase dez anos do programa integrado - que surgiu por força da "insuficiente" vigilância através do sistema de notificação obrigatória de doenças transmissíveis [a doença dos legionários foi incluída em 1999], a variável idade permite verificar que a maioria dos casos notificados incidiu no grupo etário dos 50 a 59 anos, com 251 pessoas, seguindo-se o grupo 40-49 anos, onde figuraram 207 dos infetados.

Os números menos expressivos situaram-se nas faixas abaixo dos 20 anos e entre 20-29, com sete e 17 casos respetivamente. Durante uma visita ao Hospital de Vila Franca de Xira na segunda-feira, o ministro da Saúde referiu que a legionella não atinge crianças.

Com um enigma por resolver e o aumento da preocupação à medida que sobem o números de infeção, Paulo Macedo disse ainda que existe "uma probabilidade muito grande" de "quase circunscrição" à zona de Vila Franca de Xira.

"Quer as situações que foram detetadas em Castelo Branco e noutras partes, quer um caso no Porto que já teve alta, estão todas relacionadas com as freguesias de Santa Iria da Azóia, Vialonga e Forte da Casa. Os dados que temos neste momento é de que a situação está concentrada nestas três localidades. Não se verifica outros casos noutros concelhos além dos esporádicos, que acontecem todos os meses e anos", esclareceu.

Pico da sazonalidade mais tardio que noutros países europeus
A evolução da doença pode ter ou não associados fatores de risco. Dos 962 casos notificados entre 2004 e 2013, 45 não tiveram registo de qualquer fator de risco individual, 471 apresentaram pelo menos um fator de risco e em 446 era desconhecida a existência ou ausência de fatores de risco individuais. Salienta a DGS, que o tabagismo foi o fator de risco "mais frequentemente identificado". Dos 236 casos em que foi possível proceder ao apuramento deste dado, 128 eram fumadores e 47 ex-fumadores.

Já no que se refere ao pico da sazonalidade, a maior parte dos casos notificados que ocorre no verão/outono que em Portugal é "um pouco mais tardio" comparado com outros países europeus.

A explicação pode ser a seguinte: "A existência de temperaturas ainda relativamente elevadas que facilitam a replicação de legionella, ao mesmo tempo que se verificam valores de humidade e de precipitação mais elevados no início do outono, pois parece existir uma associação entre o maior número de casos de doença dos legionários e a maior precipitação e humidade atmosférica", aponta a DGS. 

Aquele que é descrito como o primeiro surto desta doença teve lugar em Filadélfia, na 58ª convenção da Legião Americana, a 21 de julho de 1976. Era um dia quente de verão. Mais de 4000 participantes no hotel Bellevue-Stratford, o local escolhido para o encontro. Centenas ficaram ali hospedados. Em menos de uma semana, começaram a morrer legionários -  25 mortos e mais de uma centena e meia hospitalizados, na maioria homens. Só ao fim de sete meses, em janeiro de 1977, a investigação chegou a bom porto. A origem do mistério estava no sistema de ar condicionado do edifício.

 

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Autor
Expresso
Referência
Raquel Pinto

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