Perturbações SomatoformesPerturbações Mentais

Atualizado em: Segunda, 18 de Maio de 2015 | 1966 Visualizações

As perturbações somatoformes englobam várias perturbações psiquiátricas nas quais as pessoas referem sintomas físicos mas negam ter problemas psiquiátricos.   «Perturbação somatoforme» é um termo relativamente novo que se aplica ao que muita gente denomina «perturbação psicossomática». Nas perturbações somatoformes, os sintomas físicos ou a sua gravidade e duração não podem ser explicados por nenhuma doença orgânica subjacente. As perturbações somatoformes incluem a perturbação de somatização, a perturbação de conversão e a hipocondria.  

Os psiquiatras diferem consideravelmente nas suas opiniões acerca do valor e da validade do uso destas categorias de diagnóstico. No entanto, esta distinção das diferentes perturbações somatoformes proporcionou aos psiquiatras um meio para descrever a ampla variedade de sintomas que estes doentes apresentam e para diferenciar as perturbações na base destas descrições. As descrições cuidadosas podem ajudar os psiquiatras a ordenar as diferentes perturbações, que assim podem ser mais bem estudadas cientificamente.  

As perturbações somatoformes, geralmente, não têm uma explicação clara. Os doentes com uma perturbação somatoforme podem ser muito diferentes entre si. Devido a não se saber bem porquê nem como é que as pessoas desenvolvem a sua sintomatologia, não há modelos de tratamento específicos e consensuais.

A somatização é uma doença crónica e grave caracterizada pela presença de muitos sintomas físicos, em particular de uma combinação de dor e de sintomas das esferas gastrointestinal, sexual e neurológica.

As causas da somatização são desconhecidas. Ela é apresentada frequentemente como uma característica familiar. As pessoas com essa perturbação tendem também a ter perturbações da personalidade caracterizadas por egocentrismo (personalidade narcisista) e por uma dependência exagerada dos outros (personalidade dependente). (Ver secção 7, capítulo 89)

Os sintomas aparecem pela primeira vez na adolescência ou cedo na idade adulta e crê-se que ocorrem predominantemente nas mulheres. Os familiares do sexo masculino das mulheres com esta perturbação tendem a ter uma alta incidência de comportamento socialmente inapropriado e de alcoolismo.

Sintomas

Uma pessoa com somatização apresenta muitas queixas difusas de carácter físico. Embora possa afectar qualquer parte do corpo, os sintomas exprimem-se mais frequentemente como dores de cabeça, náuseas e vómitos, dor abdominal, menstruações dolorosas, cansaço, perdas de consciência, relações sexuais dolorosas e perda do desejo sexual. Embora os sintomas costumem ser primariamente físicos, também podem referir ansiedade e depressão. As pessoas com somatização descrevem os seus sintomas de um modo dramático e emotivo, referindo-se-lhes frequentemente como «insuportáveis», «indescritíveis» ou «o pior imaginável».

Estas pessoas mostram uma extrema dependência nas suas relações sociais. Pedem cada vez mais ajuda e apoio emocional e podem enfurecer-se quando sentem que não lhes satisfazem as suas necessidades. São muitas vezes descritos como exibicionistas e sedutores. Numa tentativa de manipular os outros, podem ameaçar suicidar-se ou inclusive tentá-lo. Estão frequentemente descontentes com a assistência médica que recebem e saltam de um médico para outro.

Os sintomas físicos parecem ser um modo de pedir ajuda e atenção. A intensidade e a persistência dos sintomas reflectem o desejo intenso da pessoa de ser atendida em cada um dos aspectos da sua vida. Os sintomas também parecem servir outros propósitos, como permitir que a pessoa iluda as responsabilidades da vida adulta. Os sintomas tendem a ser incómodos e impedem a pessoa de se envolver em projectos atractivos, o que sugere que também sofre de sentimentos de incapacidade e de culpabilidade. Os sintomas impedem o prazer e, simultaneamente, actuam como castigo.

Diagnóstico

As pessoas com somatização não estão conscientes de que o seu problema é basicamente psicológico e por isso pressionam os seus médicos para que lhes façam estudos diagnósticos e tratamentos. O médico vê-se obrigado a efectuar muitos exames físicos e análises para determinar se a pessoa tem uma perturbação física que explique os sintomas. As interconsultas com especialistas são frequentes, mesmo quando a pessoa tenha desenvolvido uma relação razoavelmente satisfatória com o seu médico.

Uma vez que o médico determina que a alteração é psicológica, a somatização pode ser distinguida de outras perturbações psiquiátricas semelhantes pela sua grande quantidade de sintomas e pela sua tendência a persistir durante muitos anos. Ao diagnóstico juntam-se a natureza dramática das queixas e um comportamento exibicionista, dependente, manipulador e, às vezes, suicida.

Prognóstico e Tratamento

A somatização tende a flutuar na sua gravidade, mas persiste toda a vida. É rara a remissão completa dos sintomas durante longos períodos. Algumas pessoas tornam-se mais manifestamente deprimidas com o passar dos anos e as suas referências ao suicídio tornam-se mais ameaçadoras. O suicídio é um risco real.

O tratamento é extremamente difícil. As pessoas com perturbações de somatização tendem a ter sentimentos de frustração e a encolerizar-se diante de qualquer sugestão referente ao carácter psicológico dos seus sintomas. Portanto, os médicos não podem tratar o problema directamente como de ordem psicológica, embora reconhecendo-o como tal. Os medicamentos não são de grande ajuda e inclusive, ainda que a pessoa vá a uma consulta psiquiátrica, as técnicas de psicoterapia específicas têm poucas possibilidades de êxito. De um modo geral, o melhor tratamento é uma relação médico-doente relaxada, firme e de apoio, onde o médico oferece alívio somático e protege a pessoa de possíveis procedimentos diagnósticos ou terapêuticos muito dispendiosos e possivelmente perigosos. No entanto, o médico deve permanecer atento à possibilidade de a pessoa desenvolver uma doença orgânica.

Síndroma de Munchausen: Fingir doença para chamar a atenção

A síndroma de Munchausen, tanbém deniminada simulação, não é uma perturbação somatoforme, mas as suas características são parecidas com as das perturbações psiquiátricas sob a aparência de uma doença orgânica. A diferença reside no facto de as pessoas com o síndroma de Munchausen simularem de forma consciente os sintomas de uma perturbação física. Estas inventem doenças repetidamente e muitas vezes andam de hospital em hospital à procura de tratamento.

No entanto, a síndroma de Munchausen é mais complexa do que a simples invenção e simulação desleal de sintomas. A perturbação associa-se a problemas emocionais graves. As pessoas com a perturbação são geralmente bastante inteligentes e cheias de recursos; não só sabem como imitar doenças mas têm também um conhecimento sofisticado das práticas médicas.

Podem manipular os seus cuidados de forma que sejam hospitalizadas e submetidas a análises intensas e tratamentos, incluindo grandes cirurgias. Os seus enganos são conscientes, mas as suas motivações e exigências de atenção são manifestamente inconscientes.

Uma variante curiosa da síndroma é chamada Munchausen por procuração. Nesta perturbação, uma criança é usada como doente passivo, geralmente por um progenitor. O progenitor falsifica a história médica da criança e pode causar-lhe prejuízo com medicamentos ou juntando sangue ou contaminantes bacterianos às suas amostras de urina, orientando todo o seu esforço para simular uma doença. A motivação subjacente num comportamento tão estranho como este parece ser uma necessidade doentia de atenção e de manter uma relação intensa com a criança.

A hipocondria é uma perturbação na qual uma pessoa refere sintomas físicos e está especialmente preocupada porque crê firmemente que correspondem a uma doença grave.

Sintomas e diagnóstico

As preocupações da pessoa quanto à gravidade da doença são baseadas, muitas vezes, numa interpretação incorrecta das funções normais do organismo. Por exemplo, o ruído dos intestinos e as sensações de distensão e de incomodidade que às vezes ocorrem à medida que os fluidos avançam através do tubo digestivo são normais. As pessoas com hipocondria utilizam tais «sintomas» para explicar a razão por que julgam ter uma doença grave. O facto de serem examinadas e tranquilizadas pelo médico não alivia as suas preocupações; elas tendem a crer que este não conseguiu encontrar a doença subjacente.

Suspeita-se de hipocondria quando uma pessoa saudável com sintomas menores está preocupada com o significado desses sintomas e não reage perante explicações tranquilizadoras depois de uma avaliação cuidadosa. O diagnóstico de hipocondria confirma-se quando a situação se mantém durante anos e os sintomas não podem ser atribuídos à depressão ou a outra perturbação psiquiátrica.

Tratamento

O tratamento é difícil porque uma pessoa com hipocondria está convencida de que tem algo gravemente alterado no seu corpo. Tranquilizá-la não alivia essas preocupações. No entanto, uma relação com um médico atento torna-se benéfica, sobretudo se as visitas regulares se acompanham de uma atitude tranquilizadora para o doente. Se os sintomas não se aliviarem adequadamente, pode consultar-se um psiquiatra para a sua avaliação e tratamento, continuando a manter o acompanhamento por parte do médico de primeiro atendimento.

Na conversão, os sintomas físicos consequência de um conflito psicológico assemelham-se aos de uma doença neurológica ou de outros problemas.

Os sintomas da conversão são claramente causados pelo stress e pelos conflitos psicológicos que as pessoas, de uma maneira inconsciente, convertem em sintomas físicos. Embora as perturbações de conversão tendam a verificar-se durante a adolescência ou cedo na idade adulta, podem ocorrer em qualquer idade. Pensa-se que, de algum modo, esta situação é mais frequente em mulheres do que em homens.

Sintomas e Diagnóstico

Por definição, os sintomas da conversão limitam-se àqueles que sugerem uma disfunção do sistema nervoso (geralmente a paralisia de um braço ou de uma perna ou a perda de sensibilidade numa parte do corpo). Outros sintomas incluem convulsões simuladas e a perda de algum dos sentidos, como a visão ou a audição.

Geralmente o início dos sintomas associa-se a algum acontecimento stressante de carácter social ou psicológico. Uma pessoa pode sofrer um só episódio ou ter episódios esporádicos, mas geralmente são de curta duração. Quando as pessoas com sintomas de conversão são hospitalizadas, geralmente melhoram em duas semanas. No entanto, entre 20 % e 25 % têm recaídas ao fim de um ano.

O diagnóstico é difícil de efectuar no início porque a pessoa crê que os sintomas têm origem num problema físico e não quer consultar um psiquiatra. Os médicos verificam cuidadosamente que os sintomas não têm uma causa física.

Tratamento

Para o tratamento é essencial uma relação de confiança entre o médico e o doente. Quando o médico afasta uma perturbação física e assegura à pessoa que os sintomas de que sofre não indicam uma doença grave subjacente, esta geralmente começa a sentir-se melhor e os sintomas diminuem. Quando uma situação psicologicamente stressante precedeu o início dos sintomas, a psicoterapia pode ser particularmente eficaz.

Ocasionalmente, os sintomas de conversão reaparecem com frequência e podem mesmo tornar-se crónicos. Experimentaram-se vários métodos de tratamento (e alguns podem ser úteis), embora nenhum tenha resultado uniformemente eficaz. Na hipnoterapia, a pessoa é hipnotizada e procede-se à identificação e ao debate das situações psicológicas que podem ser responsáveis pelos sintomas. O debate continua após a hipnose, quando a pessoa se encontra totalmente alerta. Outros métodos incluem a narcoanálise, que é um procedimento semelhante à hipnose, excepto na administração de um sedativo para induzir um estado de semi-sonolência. Em algumas pessoas mostrou-se eficaz a terapia de modificação do comportamento, que inclui as técnicas de relaxação.

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Referência