NefriteSistema Urinário

Atualizado em: Quinta, 09 de Julho de 2015 | 784 Visualizações

A nefrite é a inflamação dos rins.

A inflamação dos rins geralmente costuma ser provocada por uma infecção, como na pielonefrite, ou por uma reacção imune anormal que ataca os rins. Uma reacção imune anómala pode produzir-se de duas formas: 1) um anticorpo pode atacar directamente o rim ou um antigénio (uma substância que estimula uma reacção imune), aderido às células renais, ou 2) um antigénio e um anticorpo podem unir-se em qualquer outra parte do organismo e depois aderir às células do rim. Os sinais que indicam nefrite, como a presença de sangue e de proteínas na urina e uma função renal deteriorada, dependem do tipo, da localização e da intensidade da reacção imune. Contudo, numerosas condições capazes de lesar os rins podem produzir lesões, sintomas e consequências semelhantes.

Geralmente, a inflamação não afecta todo o rim. A doença resultante depende do facto de a inflamação afectar principalmente os glomérulos (a primeira parte do aparelho de filtração do rim), os tubos e os tecidos que o circundam (tecido tubulointersticial) ou os vasos sanguíneos do interior dos rins, causando vasculite.



Inflamação dos rins
Zona afectadaDoença resultante
Vasos sanguíneosVasculite
GlomérulosSíndroma nefrítica aguda
Síndroma nefrítica de progressão rápida
Síndroma nefrótica
Síndroma nefrítica crónica
Tecido tubulointersticialNefrite tubulointersticial aguda
Nefrite tubulointersticial crónica

A nefrite tubulointersticial pode ser aguda ou crónica. Pode ser causada por várias doenças, medicamentos ou certas condições que lesam os rins.

Nefrite tubulointersticial aguda

A nefrite tubulointersticial aguda é uma insuficiência renal que começa bruscamente e que é provocada por lesões dos tubos do rim e dos tecidos que os rodeiam.

A causa mais frequente de nefrite tubulointersticial aguda é um medicamento ao qual o indivíduo é alérgico ou então que lhe provoca uma intoxicação directa (uma reacção tóxica), que pode ser causa por medicamentos como a anfotericina B e os aminoglicósidos. Uma reacção alérgica pode ser desencadeada por medicamentos como a penicilina, as sulfonamidas, os diuréticos e os medicamentos anti-inflamatórios não esteróides, incluindo a aspirina.

Outras causas incluem uma infecção bacteriana dos rins (pielonefrite), certas formas de cancro, como a leucemia e o linfoma, e as doenças hereditárias.

Os sintomas são muito variáveis. Algumas pessoas desenvolvem os sintomas de uma infecção das vias urinárias: febre, micção dolorosa, pus na urina e dor na parte baixa das costas (zona lombar) ou nos flancos. Outras têm poucos sintomas, mas os exames complementares detectam sinais de insuficiência renal. O volume de urina produzido pode ser normal ou inferior ao habitual.

A urina pode ser quase normal, apenas com vestígios de proteínas ou de pus, mas, com frequência, as alterações são muito chamativas. A urina pode conter proteínas com valores suficientemente altos como os próprios de uma síndroma nefrótica, sangue evidente à vista desarmada ou ao microscópio, ou pus que contém eosinófilos, um tipo de glóbulos sanguíneos brancos. Os eosinófilos poucas vezes aparecem na urina, mas, quando o fazem, essa pessoa, quase com total segurança, terá uma nefrite tubulointersticial aguda causada por uma reacção alérgica.

Quando a causa é uma reacção alérgica, os rins estão em geral aumentados devido à inflamação provocada pela alergia. O intervalo entre a exposição ao alérgeno que causou a reacção e o desenvolvimento das alterações renais varia entre 5 dias e 5 semanas. Outros sintomas de uma reacção alérgica são a febre, uma erupção cutânea e um crescente número de eosinófilos no sangue.

Uma biopsia do rim é o único meio definitivo para diagnosticar esta perturbação.

Algumas pessoas devem ser tratadas pela insuficiência renal aguda. A função renal restabelece-se em geral depois de se ter interrompido o medicamento prejudicial, embora seja frequente desenvolverem-se algumas cicatrizes no rim.
Em alguns casos, a lesão produzida é irreversível. A terapia com corticosteróides pode acelerar a recuperação da função renal quando a perturbação foi causada por uma reacção alérgica.

 

Nefrite tubulointersticial crónica

chaA nefrite tubulointersticial crónica é qualquer doença renal crónica em que as lesões dos tubos ou do tecido circundante são maismativas que as dos glomérulos ou dos vasos sanguíneos.

Este tipo de perturbação é a responsável por cerca de um terço de todos os casos de insuficiência renal crónica. Aproximadamente 20 % dos casos de nefrite tubulointersticial crónica são resultado da ingestão prolongada de um medicamento ou de um tóxico. Os 80 % restantes podem acompanhar diversas doenças.

Certos sintomas são comuns a todos os tipos de nefrite tubulointersticial crónica. Em geral, o inchaço ou tumefacção visível dos tecidos (edema), resultado da retenção de líquido, não está presente. Na urina perdem-se poucas proteínas e é pouco frequente a presença de sangue na mesma. A tensão arterial é normal ou apenas ligeiramente superior à normal nas primeiras etapas da doença. Se na urina aparece uma grande quantidade de proteínas ou de sangue, em geral é sinal de que a doença glomerular se encontra também presente. Quando os tubos renais não estão a funcionar normalmente, os sintomas são semelhantes aos da nefrite tubulointersticial aguda. Em alguns tipos de nefrite tubulointersticial crónica formam-se cálculos renais.

A síndroma nefrítica crónica (glomerulonefrite crónica, doença glomerular lentamente progressiva) é uma perturbação que ocorre no curso de várias doenças nas quais se lesam os glomérulos e a função renal se deteriora ao fim de alguns anos.

A causa é desconhecida. Em cerca de 50 % dos casos com síndroma nefrítica crónica há evidências de uma glomerulopatia subjacente, embora não exista sintomatologia prévia.

Sintomas e diagnóstico

Como a síndroma não provoca sintomas durante anos, na maior parte dos casos passa despercebida. Desenvolve-se gradualmente, de tal modo que o médico não é capaz de dizer exactamente quando começou. Pode ser descoberta durante um exame médico de rotina de uma pessoa sem problemas de saúde, que possui um funcionamento renal normal e que não tem nenhum indício de problemas, com excepção da presença de proteínas e possivelmente de glóbulos vermelhos na urina.
Noutros casos, uma pessoa pode ter insuficiência renal com náuseas, vómitos, dificuldade em respirar, ardor ou cansaço. Pode haver retenção de líquidos (edema) e é frequente a hipertensão arterial.

Dado que os sintomas de muitas doenças renais são idênticos, uma biopsia renal é o método mais fiável para poder distingui-las nas primeiras etapas. Quase nunca se leva a cabo uma biopsia nos estádios avançados, quando os rins estão atrofiados e endurecidos, porque a possibilidade de obter informação específica sobre a causa é mínima.

Prognóstico e tratamento

Embora se tenham tentado muitas formas de terapia, nenhuma delas impediu que a doença progredisse. Pensa-se que pode ser útil diminuir a pressão arterial por meio de medicamentos e restringir o consumo de sódio. A restrição da ingestão de proteínas é modestamente útil para diminuir a velocidade de deterioração do rim. A insuficiência renal deve ser tratada com diálise ou transplante de rim.

A síndroma nefrótica é uma síndroma (um grupo de sintomas) causada por muitas doenças que afectam os rins, tendo como resultado uma perda importante e prolongada de proteínas pela urina, valores sanguíneos de proteínas diminuídos (especialmente a albumina), retenção excessiva de sal e água e valores aumentados de gorduras (lípidos) no sangue.

A síndroma nefrótica pode manifestar-se em qualquer idade. Nas crianças, é mais frequente entre os 18 meses e os 4 anos de idade, sendo os rapazes mais afectados que as raparigas. Nas pessoas de idade avançada, ambos os sexos são afectados por igual.

Causas

A síndroma nefrótica pode ser causada por qualquer das glomerulopatias ou por uma ampla gama de doenças. Algumas drogas que são tóxicas para os rins também podem causar a síndroma nefrótica, como é o caso do uso da heroína por via endovenosa. A síndroma pode estar associada a uma certa sensibilidade da pessoa para a desenvolver. Alguns tipos de síndroma são hereditários.

A síndroma nefrótica que está associada ao vírus da imunodeficiência humana (VIH) verifica-se principalmente em pessoas de etnia negra que sofrem a infecção. A síndroma evolui para uma insuficiência renal completa em 3 ou 4 meses.

O que pode causar a síndroma nefrótica
DoençasAmiloidose
Cancro
Diabetes
Glomerulopatias
Infecção por vírus da imunodeficiência humana (HIV)
Leucemias
Linfomas
Gamapatia monoclonal
Mieloma múltiplo
Lúpus eritematoso sistémico
MedicamentosAnalgésicos com características semelhantes às da aspirina
Ouro
Heroína fornecida por via endovenosa
Penicilamina
AlergiasPicadas de insectos
Veneno do carvalho
Sumagre venenoso
Luz solar

Sintomas

Os sintomas iniciais incluem falta de apetite, sensação de mal-estar generalizado, edema das pálpebras, dor abdominal, perda de massa muscular, edema dos tecidos pelo excesso de sal e a retenção de líquido e urina espumosa. O abdómen pode ter o volume aumentado pela grande acumulação de líquido, enquanto o líquido acumulado no espaço que circunda os pulmões (derrame pleural) pode produzir asfixia. Outros sintomas são a tumefacção dos joelhos e, nos homens, do escroto. Com frequência, o líquido que causa a inflamação dos tecidos desloca-se pelo corpo, acumulando-se nas pálpebras, visível ao levantar pela manhã, e nos tornozelos ao fim do dia. A perda de massa muscular pode ser mascarada pelo inchaço.
Nas crianças pode-se manifestar uma descida da tensão arterial quando se põem de pé e, em geral, hipotensão arterial, que pode conduzir ao choque. Os adultos podem ter uma pressão baixa, normal ou hipertensão arterial. A produção de urina pode diminuir e pode-se desenvolver insuficiência renal por causa do baixo volume de sangue e do escasso fornecimento de sangue ao rim.

Ocasionalmente, surge uma insuficiência renal de forma súbita com uma baixa produção de urina. Quando a pessoa consulta pela primeira vez o médico, as concentrações de proteínas na urina são, em geral, elevadas.

As deficiências nutricionais podem ser o resultado da perda de nutrientes, como a glicose, pela urina. O crescimento pode atrasar-se e pode-se perder o cálcio dos ossos. O cabelo e as unhas podem tornar-se frágeis e haver queda do cabelo. Por razões desconhecidas, podem aparecer linhas brancas horizontais na base das unhas.

O revestimento abdominal (peritoneu) pode inflamar-se (peritonite). São frequentes as infecções oportunistas (infecções causadas por bactérias normalmente inofensivas). Pensa-se que a alta incidência de infecção se deve ao facto de que os anticorpos que normalmente a combatem se perdem pela urina ou não se produzem em quantidades normais. A coagulação sanguínea altera-se, aumentando significativamente o risco de coagulação no interior dos vasos sanguíneos (trombose), especialmente dentro da veia principal do rim. Pelo contrário, pode acontecer que o sangue não se coagule, o que geralmente conduz ao aparecimento de hemorragias excessivas. A hipertensão arterial, com complicações que afectam o coração e o cérebro, é mais provável que ocorra em pessoas que sofrem de diabetes e nas que sofrem de uma doença do tecido conjuntivo.

Diagnóstico

O diagnóstico da síndroma nefrótica baseia-se nos sintomas e nos exames complementares. As análises de urina detectam concentrações elevadas de proteínas com agrupamentos de células (cilindros). A concentração de albumina no sangue é baixa, porque esta proteína vital se perde pela urina e a sua síntese é insuficiente. Os valores de sódio na urina são baixos e os do potássio são altos.

As concentrações de lípidos (gorduras) no sangue são elevadas, por vezes até 10 vezes acima do normal ou inclusive mais. As concentrações de lípidos na urina também são elevadas. Pode haver anemia. Os factores de coagulação sanguíneos podem estar elevados ou baixos.

O médico investiga as possíveis causas da síndroma nefrótica, incluindo os medicamentos. As análises de urina e de sangue podem revelar uma alteração subjacente. Se a pessoa perde peso ou é de idade avançada, deve procurar-se um cancro. Uma biopsia do rim é especialmente útil para a classificação do tipo de lesões.

Prognóstico

O prognóstico varia dependendo da etiologia da síndroma nefrótica, da idade e do tipo de lesão renal observada no exame ao microscópio do tecido obtido por biopsia. Os sintomas podem desaparecer completamente quando a síndroma nefrótica é provocada por uma perturbação que se pode tratar, como uma infecção, um cancro, ou por medicamentos. Esta situação verifica-se em cerca de metade dos casos que se apresentam nas crianças, mas com menor frequência nos adultos. O prognóstico é geralmente bom se a perturbação subjacente responder aos corticosteróides. Quando a síndroma foi causada pela infecção pelo VIH, em geral não se detém. As crianças nascidas com a síndroma nefrótica quase nunca sobrevivem para além do primeiro ano, embora algumas tenham sobrevivido graças à diálise ou ao transplante do rim.

A síndroma nefrótica tem o melhor prognóstico quando é causada por um tipo ligeiro de glomerulonefrite, a doença das alterações mínimas. Muitos adultos e 90 % das crianças respondem ao tratamento. A doença raramente evolui para insuficiência renal, embora seja provável que recidive. Contudo, depois de ter passado um ano sem que se verifiquem sintomas, é pouco provável que haja uma recidiva.

glomerulonefrite membranosa, o tipo mais grave de glomerulonefrite que a síndroma nefrótica provoca, afecta principalmente os adultos e evolui lentamente para a insuficiência renal em 50 % dos maiores de 15 anos. Os 50 % restantes estão livres da doença ou têm uma presença persistente de proteínas na urina, mas com um funcionamento renal normal. Na maior parte das crianças que sofrem de glomerulonefrite membranosa, as proteínas na urina desaparecem espontaneamente ao cabo dos 5 anos posteriores ao diagnóstico da doença.

Outros tipos, a síndroma nefrótica familiar e a glomerulonefrite membranoproliferativa, respondem muito pouco ao tratamento e o seu prognóstico é menos optimista. Mais de metade dos indivíduos que têm o tipo familiar desenvolvem insuficiência renal antes de 10 anos. Em 20 %, o prognóstico é mesmo pior: a insuficiência renal grave aparece antes de dois anos. A doença avança mais rapidamente nos adultos do que nas crianças. No caso da glomerulonefrite membranoproliferativa, 50 % das pessoas evoluem para a insuficiência renal nos primeiros 10 anos; a doença desaparece em menos de 5 % dos casos.

Outro tipo, a glomerulonefrite proliferativa mesangial, praticamente nunca responde aos corticosteróides.

Quando a síndroma nefrótica é provocada pelo lúpus eritematoso sistémico, por uma amiloidose ou pela diabetes, o tratamento é principalmente sintomático mais que curativo. Embora os tratamentos mais recentes do lúpus eritematoso sistémico reduzam os sintomas e estabilizem ou corrijam os resultados anormais dos exames, na maior parte dos casos produz-se uma insuficiência renal progressiva. Na síndroma nefrótica da diabetes, a insuficiência renal grave geralmente desenvolve-se em 3 a 5 anos.
Nos casos da síndroma nefrótica provocada por uma infecção, uma alergia ou pelo consumo de heroína por via endovenosa, o prognóstico varia em função da rapidez e da eficácia com que se trata a perturbação subjacente.

Tratamento

O tratamento deve ser dirigido contra a causa subjacente. O tratamento de uma infecção que causa a síndroma nefrótica pode curar esta. Quando a síndroma é provocada por uma doença curável, como a doença de Hodgkin ou outro tipo de cancro, o tratamento da mesma pode eliminar os sintomas renais. Se um dependente da heroína que sofre da síndroma nefrótica deixar de usar a droga nas etapas iniciais da doença, os sintomas podem desaparecer. Os indivíduos sensíveis à luz solar, ao veneno do carvalho, ao sumagre venenoso ou às picadas de insectos devem evitar esses agentes irritantes. As injecções alérgicas  (dessensibilização) podem fazer reverter a síndroma nefrótica associada aos três últimos alérgenos. Se os responsáveis pela síndroma forem os medicamentos, a sua interrupção pode eliminar os problemas renais.

Se não se puder encontrar a causa, administram-se corticosteróides e medicamentos, como a ciclofosfamida, que inibem o sistema imunitário. Contudo, estes medicamentos causam problemas às crianças porque podem atrasar o crescimento e suprimir o desenvolvimento sexual.

A terapia geral compreende uma dieta que contenha quantidades normais de proteínas e de potássio, mas que seja baixa em gorduras saturadas e sódio. Ingerir demasiadas proteínas eleva os valores de proteínas na urina. Os inibidores do enzima conversor da angiotensina, como o enalapril, o captopril e o lisinopril, em geral fazem decrescer a excreção de proteínas na urina e as concentrações de lípidos no sangue. Contudo, estes medicamentos podem aumentar a concentração de potássio no sangue, nos doentes que sofrem de uma disfunção renal entre moderada e grave.

Quando se acumula líquido no abdómen, realizar pequenas refeições com frequência pode ajudar a reduzir os sintomas. A hipertensão arterial trata-se em geral com diuréticos. Os diuréticos também podem diminuir a retenção de líquidos e o encharcamento dos tecidos, mas podem aumentar o risco da formação de coágulos de sangue. Os anticoagulantes podem ajudar a controlar a formação de coágulos. As infecções podem ser potencialmente mortais e devem ser tratadas imediatamente.

A síndroma nefrítica rapidamente progressiva (glomerulonefrite rapidamente progressiva) é uma perturbação pouco frequente em que os glomérulos, na sua maior parte, estão parcialmente destruídos, provocando insuficiência renal grave com presença de proteínas, sangue e aglomerados de glóbulos vermelhos (cilindros) na urina.

A síndroma nefrítica rapidamente progressiva faz parte de uma perturbação que afecta outros órgãos, além dos rins, em aproximadamente 40 % dos casos. Em 60 % dos casos em que os rins são afectados, aproximadamente um terço parece ser causado por anticorpos que atacam os glomérulos; deste, cerca de metade deve-se a causas desconhecidas e o resto é provocado pelo depósito, nos rins, de anticorpos e antigénios que se formaram noutra parte do corpo (doença por complexos imunes).

Desconhece-se a causa pela qual o organismo produz anticorpos contra os seus próprios glomérulos. A produção destes anticorpos prejudiciais pode estar relacionada com infecções virais ou com perturbações auto-imunes, como o lúpus eritematoso sistémico. Em alguns indivíduos que desenvolvem anticorpos contra os seus próprios glomérulos, os anticorpos também reagem contra os alvéolos pulmonares, produzindo a síndroma de Goodpasture, um processo em que são afectados os pulmões e os rins. Os hidrocarbonetos, tais como o etilenoglicol, o tetracloreto de carbono, o clorofórmio e o tolueno, podem lesar os glomérulos, mas em contrapartida não provocam uma reacção imune nem a produção de anticorpos.

Sintomas e diagnóstico

A fraqueza, o cansaço e a febre são os sintomas iniciais mais evidentes. As náuseas, a perda de apetite, os vómitos, a dor articular e a dor abdominal também são frequentes. Aproximadamente em 50 % dos casos, um mês antes de aparecerem os sinais de insuficiência renal houve uma doença de tipo gripal. Estas pessoas têm inchaço (edema) provocado pela retenção de líquidos e, geralmente, produzem muito pouca urina.

A hipertensão arterial é pouco frequente e quase nunca é grave quando se manifesta. Se os pulmões estiverem afectados (síndroma de Goodpasture), é frequente tossir e cuspir com sangue e apresentar dificuldade em respirar.

Com frequência vê-se sangue na urina e também é possível encontrar grupos de glóbulos vermelhos num exame microscópico da mesma. As análises de sangue detectam anemia, por vezes grave, e geralmente também um número anormalmente elevado de glóbulos brancos. As análises de sangue para avaliar a função renal detectam a acumulação de produtos tóxicos residuais.
No princípio, a ecografia ou as radiografias podem evidenciar um aumento do tamanho dos rins, mas depois vão-se reduzindo gradualmente. Muitas vezes, extrai-se uma amostra de tecido renal com uma agulha e envia-se ao laboratório para exame ao microscópio (biopsia) a fim de confirmar o diagnóstico e assegurar-se que a pessoa não sofre de outra afecção que poderia ser tratada eficazmente.

Prognóstico

O prognóstico realiza-se tendo em conta a gravidade dos sintomas, que são muito variáveis. Como os sintomas iniciais são subtis, muitas pessoas que sofrem desta doença não se dão conta de que estão doentes e não vão ao médico até que a insuficiência renal se agrava. Os indivíduos que desenvolvem insuficiência renal morrem no curso de poucas semanas, a menos que sejam submetidos a diálise.

O prognóstico também depende da causa e da idade da pessoa afectada. Quando a causa é uma doença auto-imune, em que o organismo produz anticorpos contra as suas próprias células, o tratamento, em geral, melhora a situação. Quando a causa é desconhecida ou a pessoa é de idade avançada, o prognóstico é grave. Geralmente, os casos não tratados desenvolvem insuficiência renal ao fim de dois anos.

Tratamento

Quando os médicos suspeitam de uma síndroma nefrítica rapidamente progresiva, leva-se a cabo uma biopsia renal o mais depressa possível, de modo a poder-se confirmar o diagnóstico, estabelecer o prognóstico e definir o tratamento. Também se efectuam análises de sangue para a detecção de anticorpos e exames para a detecção de infecções.

Quando os resultados da biopsia mostram uma doença grave dos glomérulos, inicia-se imediatamente um tratamento com medicamentos para obter a máxima eficácia. Como norma geral, administram-se corticosteróides por via endovenosa em doses elevadas durante uma semana, aproximadamente, e, depois, por via oral. Pode-se também dar ciclofosfamida ou azatioprina, medicamentos que inibem o sistema imunitário. Além disso, também se pode realizar uma plasmafére se, procedimento em que se retira sangue do corpo, se filtra através de um aparelho que extrai os anticorpos e depois se devolve ao corpo.
Se a doença evoluiu para uma etapa mais avançada, a diálise pode ser o único tratamento útil. A alternativa é o transplante do rim, embora a doença original possa afectar o rim transplantado.

A síndroma nefrítica aguda (glomerulonefrite aguda; glomerulonefrite pós-infecciosa) é uma inflamação dos glomérulos que tem como resultado o aparecimento repentino de sangue na urina, com grupos de glóbulos vermelhos aglomerados (cilindros) e quantidades variáveis de proteínas na urina.

A síndroma nefrítica aguda pode aparecer depois de uma infecção da garganta provocada, por exemplo, por estreptococos. Nesses casos, a doença denomina-se glomerulonefrite pós-estreptocócica. Os glomérulos lesionam-se pela acumulação dos antigénios dos estreptococos mortos aos quais aderiram os anticorpos que os neutralizaram. Estas uniões antigénio-anticorpo (complexos imunes) recobrem as membranas dos glomérulos e interferem com a sua capacidade de filtração. Neste caso os antibióticos são ineficazes porque a nefrite começa entre 1 e 6 semanas (em média 2 semanas) depois da infecção e os estreptococos já estão mortos. A glomerulonefrite pós-estreptocócica é mais frequente nas crianças com mais de 3 anos e nos adultos jovens. Aproximadamente 5 % dos casos surgem acima dos 50 anos.

A síndroma nefrítica aguda também pode ser provocada por uma reacção perante outras infecções, como a infecção de uma parte artificial do corpo (prótese), a endocardite bacteriana, pneumonia, abcessos nos órgãos abdominais, a varicela, a hepatite infecciosa, a sífilis e o paludismo. As três últimas infecções podem causar mais a síndroma nefrótica do que a síndroma nefrítica aguda.

Sintomas e diagnóstico

Aproximadamente metade dos que sofrem desta síndroma não têm sintomas. Quando se apresentam, o primeiro a aparecer é a retenção de líquidos com inchaço dos tecidos (edema), um menor volume de produção de urina e o escurecimento desta pela presença de sangue. O edema pode manifestar-se no início como um inchaço da cara e das pálpebras, depois torna-se evidente nas pernas e pode agravar-se posteriormente. A hipertensão arterial e o edema do cérebro produzem dores de cabeça, queixas na visão e perturbações ainda mais importantes da função cerebral. Uma análise complementar da urina mostra quantidades variáveis de proteínas e com frequência a concentração de ureia e de creatinina, dois produtos de excreção, está aumentada no sangue.

Os médicos investigam a possibilidade de ocorrer uma glomerulonefrite pós-estreptocócica nos indivíduos que desenvolvem os sintomas antes mencionados, em que os resultados dos exames complementares indicam uma disfunção renal depois de uma inflamação de garganta, infecção cutânea (impetigo) ou, com maior razão, quando uma cultura é positiva para estreptococos. Os títulos de anticorpos no sangue contra os estreptococos podem estar mais elevados que o normal. A síndroma nefrótica produz-se em aproximadamente 30 % destas pessoas. Raramente a produção de urina se interrompe completamente; apenas se desenvolve a glomerulonefrite estreptocócica, o volume de sangue aumenta bruscamente e eleva-se a concentração de potássio no sangue. Pode sobrevir a morte, a menos que se inicie a diálise rapidamente.

A síndroma nefrítica aguda que se segue a uma infecção por microrganismos diferentes dos estreptococos é, em geral, mais fácil de diagnosticar porque os seus sintomas começam, com frequência, enquanto a infecção ainda é óbvia.

Prognóstico e tratamento

Os que sofrem da síndroma nefrítica aguda em geral recuperam por completo. Contudo, se os exames complementares mostrarem grandes quantidades de proteínas na urina ou uma rápida diminuição da função renal, é possível que se desenvolva uma insuficiência renal e que as lesões sejam permanentes. Em 1 % das crianças e em 10 % dos adultos, a síndroma nefrítica aguda evolui para a síndroma nefrítica rapidamente progressiva. Em aproximadamente 85 % a 95 % das crianças, a função renal volta à normalidade, mas têm maior risco de desenvolver hipertensão arterial posteriormente, ao longo da vida. Aproximadamente 40 % dos adultos não recuperam por completo e continuarão a ter alterações da função renal.

Na maioria dos casos não existe um tratamento eficaz. Os medicamentos que inibem o sistema imunitário (medicamentos imunossupressores) e os corticosteróides não são eficazes; os corticosteróides podem mesmo agravar a doença. No caso de se encontrar ainda presente uma infecção bacteriana quando se descobre a síndroma nefrítica aguda, inicia-se uma terapia com antibióticos. Se se apresentar como resultado da infecção de uma parte artificial do corpo, como uma válvula cardíaca, o prognóstico é bom, desde que a infecção possa ser erradicada. A sua erradicação exige muitas vezes a extracção e a substituição da prótese artificial, além da administração de antibióticos.

Pode ser necessário seguir uma dieta baixa em proteínas e sal até que se restabeleça a função renal. Podem administrar-se diuréticos para ajudar os rins a excretar o excesso de sal e de água. A hipertensão arterial provavelmente terá de ser tratada com medicamentos. Os indivíduos que desenvolvem insuficiência renal grave podem precisar de diálise.

As perturbações do rim em que a inflamação afecta principalmente os glomérulos denominam-se glomerulopatias. Embora as causas sejam múltiplas, todas as glomerulopatias são semelhantes porque os glomérulos respondem sempre de modo semelhante, independentemente da causa.

Há quatro tipos principais de glomerulopatias. A síndroma nefrítica aguda começa repentinamente e, em geral, resolve-se rapidamente. A síndroma nefrítica, rapidamente progressiva, começa de forma repentina e agrava-se com grande rapidez. A síndroma nefrótica conduz à perda de grandes quantidades de proteínas pela urina. A síndroma nefrítica crónica começa gradualmente e agrava-se muito lentamente, muitas vezes ao longo de vários anos.

Quando é lesado o glomérulo, as substâncias da corrente sanguínea que normalmente não se filtram, como as proteínas, o sangue, os glóbulos brancos e os resíduos, podem então passar através do mesmo e perder-se pela urina. Nos capilares que alimentam o glomérulo podem formar-se minúsculos coágulos sanguíneos (microtrombos); estes, juntamente com outras alterações, podem reduzir enormemente o volume de urina produzida. Além disso, os rins podem tornar-se incapazes de concentrar a urina, excretar o ácido do organismo ou equilibrar a excreção de sais. No princípio, o glomérulo pode compensar esta deficiência parcialmente tornando-se maior, mas a sua deterioração crescente provoca a descida da produção de urina e a acumulação de produtos residuais no sangue.

Diagnóstico

O diagnóstico preciso de todas as glomerulopatias estabelece-se mediante a realização de uma biopsia de rim, do qual se extrai uma pequena amostra por meio da inserção de uma agulha através da pele. A amostra é examinada ao microscópio antes e depois de ter sido corada para visualizar o tipo e a localização das reacções imunes dentro do rim.

Um exame de uma amostra de urina (análise de urina) ajuda a estabelecer o diagnóstico e uma simples análise de sangue indica em que medida a extensão das lesões afectou a função renal. A medição das concentrações de anticorpos no sangue pode ajudar a determinar a evolução da doença, se os valores aumentam (o quadro está a agravar-se) ou se diminuem (o quadro está a melhorar).

Prognóstico e tratamento

O curso e o prognóstico de uma glomerulopatia são muito variáveis e dependem da causa subjacente. Embora as reacções imunes que causam muitas doenças renais actualmente sejam conhecidas, na maior parte dos casos não há tratamento ou então não é específico para essa perturbação imune. Os médicos tentam modificar a reacção imune eliminando o antigénio, o anticorpo ou o complexo criado pela união de ambos com procedimentos como a plasmaférese (que elimina as substâncias nocivas do sangue) ou tentam suprimir a reacção imune com medicamentos anti-inflamatórios e imunossupressores, como os corticosteróides, a azatioprina e a ciclofosfamida. Em alguns casos, os medicamentos que evitam a coagulação do sangue também são benéficos. Sempre que possível, deve administrar-se o tratamento específico para a perturbação subjacente; por exemplo, antibióticos no caso de uma infecção.

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Referência