MiocardiopatiaSangue e Sistema Cardiovascular

Atualizado em: Segunda, 18 de Maio de 2015 | 202 Visualizações

A miocardiopatia é uma perturbação progressiva que altera a estrutura ou prejudica o funcionamento da parede muscular das cavidades inferiores do coração (ventrículos). A miocardiopatia pode ser provocada por muitas doenças conhecidas ou por uma causa não identificável.  

A miocardiopatia congestiva com dilatação é um grupo de perturbações cardíacas em que os ventrículos se dilatam, mas não são capazes de bombear o sangue suficiente para as necessidades do organismo; em consequência, produz-se uma insuficiência cardíaca.

Nos países desenvolvidos, a causa identificável mais frequente de miocardiopatia congestiva com dilatação é a doença das artérias coronárias, amplamente difundida. Esta doença determina uma chegada de sangue insuficiente ao músculo cardíaco, o que pode conduzir a lesões permanentes. A parte não lesionada do músculo cardíaco distende-se para compensar a perda da acção de bombeamento. Quando esta dilatação não pode compensar o défice adequadamente, produz-se a miocardiopatia congestiva dilatada.

Uma inflamação aguda do músculo cardíaco (miocardite), causada por uma infecção viral, pode debilitá-lo e produzir uma miocardiopatia congestiva com dilatação (por vezes chamada miocardiopatia viral). A infecção pelo vírus Coxsackie B é a causa mais frequente de miocardiopatia viral. Certas perturbações hormonais crónicas, como a diabetes e a doença tiróidea podem também provocar uma miocardiopatia congestiva com dilatação, assim como o consumo de certas drogas (como o álcool e a cocaína) e de fármacos (como os antidepressivos). A miocardiopatia alcoólica surge depois de 10 anos, aproximadamente, de abuso do álcool. Raramente a gravidez ou certas doenças do tecido conjuntivo, como a artrite reumatóide, podem causar uma miocardiopatia congestiva com dilatação.

Sintomas e diagnóstico

 

Os sintomas iniciais da miocardiopatia congestiva com dilatação (sentir falta de ar durante um esforço físico e cansar-se facilmente) são o resultado do enfraquecimento da acção de bombeamento do coração (insuficiência cardíaca). Quando a causa da miocardiopatia é uma infecção, os primeiros sintomas podem ser a febre repentina e outros semelhantes aos da gripe. Em qualquer caso, a frequência cardíaca acelera-se, a pressão arterial é normal ou baixa, há retenção de líquidos nas pernas e o abdómen e os pulmões enchem-se de líquido.

A dilatação do coração faz com que as válvulas cardíacas se abram e fechem incorrectamente; no caso da válvula tricúspide e da válvula mitral, produz-se um refluxo anormal de sangue dos ventrículos para as aurículas durante a sístole, porque as válvulas não fecham bem. O fecho inadequado das válvulas causa sopros que se podem ouvir com um fonendoscópio. Por último, as lesões e a distensão do músculo cardíaco determinam um ritmo cardíaco anormalmente rápido ou então lento. Estas anomalias alteram ainda mais a função de bombeamento do coração.

O diagnóstico baseia-se nos sintomas e num exame físico. O electrocardiograma (um exame que regista a actividade eléctrica do coração) revela mudanças características. O ecocardiograma (um exame que utiliza ultra-sons para criar uma imagem das estruturas cardíacas) e a ressonância magnética (RM) confirmam o diagnóstico. Se apesar destes procedimentos o diagnóstico for ainda duvidoso, uma avaliação mais precisa requer a introdução de um cateter que permita medir pressões dentro do coração. Durante o cateterismo, pode extrair-se uma amostra de tecido para o analisar ao microscópio (biopsia) e assim confirmar o diagnóstico e, muitas vezes, conhecer a causa.

 

Prognóstico e tratamento

À volta de 70 % das pessoas com miocardiopatia congestiva com dilatação morrem antes dos 5 anos após o aparecimento dos primeiros sintomas; o prognóstico agrava-se à medida que as paredes do coração se tornam mais finas e a função cardíaca diminui. As anomalias no ritmo cardíaco indicam também um prognóstico grave.

Segundo os estudos, tanto o sexo como a origem étnica jogam um papel importante no prognóstico. No conjunto, os homens sobrevivem só metade do tempo em comparação com as mulheres e as pessoas de etnia negra metade em comparação com as de etnia branca. Cerca de 50 % das mortes são repentinas, provavelmente como resultado de uma arritmia cardíaca.

Tratar especificamente a causa subjacente, como o abuso do álcool ou uma infecção, pode prolongar a vida. Se a causa for o abuso do álcool, é necessário abster-se do seu consumo. O tratamento com antibióticos está indicado se existir uma infecção bacteriana que cause a inflamação repentina do músculo cardíaco.

No caso de uma pessoa com uma doença das artérias coronárias, o escasso fornecimento de sangue devido à insuficiência cardíaca pode causar angina (dor no peito por doença cardíaca) , o que exige a aplicação de um tratamento com nitratos, um betabloqueador ou um bloqueador dos canais do cálcio.

Os betabloqueadores e os bloqueadores dos canais do cálcio podem reduzir a força das contracções cardíacas. O repouso suficiente, o sono adequado e a redução do stress contribuem para diminuir a tensão sobre o coração.

A estase do sangue no coração dilatado pode causar a formação de coágulos nas paredes das cavidades. Para prevenir esta coagulação, administram-se habitualmente fármacos anticoagulantes.

Geralmente, os fármacos utilizados para prevenir as arritmias são prescritos em pequenas doses, que depois se aumentam gradualmente, pois podem reduzir a força das contracções cardíacas. A insuficiência cardíaca trata-se também com fármacos (um inibidor do enzima conversor da angiotensina, que se associa frequentemente a um diurético).

No entanto, a não ser que a miocardiopatia congestiva com dilatação possa ser tratada, é muito provável que a insuficiência cardíaca seja finalmente mortal. Dado este mau prognóstico, os indivíduos com miocardiopatia congestiva com dilatação são os principais candidatos a um transplante cardíaco.

A miocardiopatia hipertrófica é um grupo de perturbações caracterizadas por uma hipertrofia ventricular (um espessamento das paredes dos ventrículos).

A miocardiopatia hipertrófica é hereditária em certos casos. Pode também surgir em doentes com acromegalia, uma doença que resulta da presença de uma quantidade excessiva da hormona do crescimento no sangue, ou com feocromocitoma, um tumor que produz adrenalina. As pessoas com neurofibromatose, uma doença hereditária, podem também desenvolver uma miocardiopatia hipertrófica.

Habitualmente, um espessamento das paredes musculares do coração representa uma reacção do músculo face a um aumento do trabalho cardíaco. As causas mais frequentes são a hipertensão arterial, o estreitamento da válvula aórtica (estenose da válvula aórtica) e outras perturbações que aumentam a resistência à saída do sangue do coração. No entanto, os doentes com miocardiopatia hipertrófica não têm estas afecções. Por outro lado, o espessamento que se verifica nesta doença deve-se em geral a uma anomalia genética herdada.

O coração aumenta de espessura e torna-se mais rígido do que o normal, o que provoca uma maior resistência à entrada do sangue que provém dos pulmões. Uma das consequências é uma estase do sangue nas veias pulmonares, que pode provocar a acumulação de líquido nos pulmões e, em consequência, uma dispneia de forma crónica. Quando as paredes ventriculares se espessam, podem também obstruir o fluxo de sangue e impedir o enchimento adequado do coração. 

Sintomas e diagnóstico

Os sintomas compreendem desfalecimento, dor torácica, palpitações produzidas pelos batimentos cardíacos irregulares e insuficiência cardíaca com dispneia. Os batimentos cardíacos irregulares podem provocar a morte súbita. O diagnóstico efectua-se a partir do exame físico. Por exemplo, os ruídos do coração que se ouvem com um fonendoscópio geralmente são característicos.

O diagnóstico costuma confirmar-se com um ecocardiograma, um electrocardiograma (ECG) ou uma radiografia do tórax. Se se considerar a possibilidade de uma intervenção cirúrgica, pode ser necessário efectuar um cateterismo cardíaco para medir as pressões dentro do coração.

Prognóstico e tratamento

Todos os anos morrem aproximadamente 4 % das pessoas que sofrem de uma miocardiopatia hipertrófica. A morte costuma surgir de forma súbita; o falecimento devido a uma insuficiência cardíaca crónica é menos frequente. É recomendável o aconselhamento genético no caso de a perturbação ser hereditária e se desejar ter descendência.

O tratamento é orientado para reduzir a resistência do coração ao seu enchimento entre os batimentos. O tratamento principal é a administração, em conjunto ou em separado, de betabloqueadores e de antagonistas dos canais do cálcio.

A intervenção cirúrgica em que se extirpa uma parte do músculo cardíaco aumenta a saída de sangue do coração, mas só é levada a cabo em doentes que apresentem sintomas incapacitantes, apesar do tratamento farmacológico. A cirurgia melhora os sintomas, mas não reduz o risco de morte.

Antes de efectuar uma intervenção odontológica ou cirúrgica, administram-se antibióticos para reduzir o risco de infecção do revestimento interno do coração (endocardite infecciosa).

A miocardiopatia restritiva é um grupo de perturbações do músculo cardíaco que se caracterizam por uma rigidez das paredes ventriculares (que não estão necessariamente espessadas), o que provoca uma resistência ao enchimento normal do sangue entre os batimentos.

É a forma menos frequente de miocardiopatia e partilha muitos traços com a miocardiopatia hipertrófica.

A sua causa é desconhecida. Num dos seus dois tipos básicos, o músculo cardíaco é gradualmente substituído por tecido cicatricial. No outro tipo, o músculo é infiltrado por uma substância anómala, como os glóbulos brancos do sangue.

Outras causas de infiltração podem ser a amiloidose e a sarcoidose. Se o organismo contém muito ferro, este acumula-se no músculo cardíaco, como uma sobrecarga de ferro (hemocromatose). Por último, esta miocardiopatia poderá também ser consequência de um tumor que invada o tecido cardíaco.

Devido à resistência que o coração opõe ao enchimento, o volume bombeado é suficiente quando o doente está em repouso, mas não o é quando está a fazer um esforço.

Sintomas e diagnóstico

A miocardiopatia restritiva provoca insuficiência cardíaca com dispneia e inchaço dos tecidos (edema). A angina de peito e o desfalecimento verificam-se com menos frequência do que na miocardiopatia hipertrófica, mas por outro lado são habituais as arritmias e as palpitações.

A miocardiopatia restritiva é uma das causas possíveis que se investigam no caso de uma pessoa ter uma insuficiência cardíaca. O diagnóstico baseia-se fundamentalmente no exame físico, no electrocardiograma (ECG) e no ecocardiograma.

A ressonância magnética (RM) pode proporcionar informação adicional acerca da estrutura do coração. O diagnóstico preciso requer o cateterismo do coração para medir as pressões e uma biopsia do músculo cardíaco (obtenção de uma amostra e a sua análise ao microscópio), que permita a identificação da substância que o infiltra.

Prognóstico e tratamento

Cerca de 70 % dos doentes com miocardiopatia restritiva morrem antes dos 5 anos do aparecimento dos primeiros sintomas. Na maioria dos casos, não existe qualquer tratamento eficaz.

Por exemplo, os diuréticos, que normalmente se usam para tratar a insuficiência cardíaca, reduzem o volume de sangue que chega ao coração e agravam a situação, em vez de a melhorar.

Os fármacos normalmente utilizados na insuficiência cardíaca para reduzir a sobrecarga do coração não são úteis porque diminuem demasiadamente a pressão arterial.

Por vezes, a causa da miocardiopatia restritiva pode ser tratada para impedir que as lesões cardíacas se agravem ou inclusive para que regridam parcialmente.

Por exemplo, a extracção de sangue com intervalos regulares reduz a quantidade de ferro armazenado nas pessoas com hemocromatose. No caso de uma sarcoidose, é recomendável a administração de corticosteróides.

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Referência

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