HirsutismoMulher e Maternidade

Atualizado em: Quinta, 08 de Outubro de 2015 | 1139 Visualizações

O hirsutismo é um problema crónico que se manifesta pelo crescimento excessivo de pêlos grossos e escuros na mulher, em zonas do corpo onde normalmente surgem no homem (lábio superior, queixo, costas, à volta dos mamilos, entre as mamas, abaixo do umbigo, na região interna das coxas e nas nádegas).  

Mais do que um problema meramente estético, o hirsutismo pode ser uma manifestação de uma doença, geralmente do foro hormonal, pelo que justifica uma investigação sistemática pelo endocrinologista. Para além dos seus aspectos físicos, implica ainda problemas psicológicos e de desconforto nas relações sociais, justificando-se o seu tratamento, muitas vezes em coordenação com o dermatologista.  

O hirsutismo atinge 5 a 8% da população feminina em idade fértil, o que significa que uma em cada 20 mulheres, entre a puberdade e os 50 anos, é hirsuta.

O tratamento do hirsutismo pode ser efectuado sem medicamentos ou com medicamentos. O primeiro é geralmente usado como suplemento do segundo e compreende a remoção do pêlo por métodos físicos (lâmina, cera), químicos (cremes depilatórios), electrólise ou laser.

Em mulheres obesas, a perda de peso pode reduzir a produção androgénica ovárica conferida pela resistência à acção da insulina e, consequentemente, reduzir o crescimento do pêlo, melhorar a função menstrual e restaurar a fertilidade.

Quando se inicia o tratamento com medicamentos, devem ser cumpridas duas regras básicas: a mulher deve ser advertida para não esperar melhoria do hirsutismo em menos de 6 meses, visto que é esta aproximadamente a semi-vida dos folículos pilosos; informar a mulher e a família de que a duração da terapêutica é longa porque a produção de androgénios ou o aumento da sua sensibilidade é persistente. No entanto, como regra, os medicamentos correntemente disponíveis para o tratamento do hirsutismo devem ser suspensos quando se pretende uma gravidez.

Contraceptivos orais – Considerados de primeira linha na terapêutica das mulheres com hiperandrogenismo. Devem ser utilizados estrogénios em baixas doses com um progestativo não androgénico, evitando associações que contenham norgestrel ou levonorgestrel, devido à actividade androgénica destes compostos.

Terapêutica anti-androgénica – Fazem parte deste grupo a espironolactona, o acetato de ciproterona, a flutamida e o finasteride. Há vários estudos que demonstram eficácia semelhante entre estes fármacos, isoladamente ou em múltiplas associações. A espironolactona e o acetato de ciproterona são os mais utilizados deste grupo.

Glucocorticóides – Indicados apenas no tratamento do hirsutismo causado pelo excesso de androgénios resultante da supra-renal.

Metformina – Indicada cada vez mais como adjuvante de um plano alimentar e exercício personalizados, em mulheres com síndroma do ovário poliquístico, com a finalidade de reduzir a resistência à insulina e o aumento associado da produção de androgénios pelos ovários.

Estas alternativas terapêuticas podem ser utilizadas isoladamente ou em associação, dependendo da causa encontrada e em função da resposta terapêutica. A avaliação da eficácia é baseada clinicamente ao demonstrar uma redução da pontuação atribuída a cada área de crescimento piloso e uma resolução dos outros sinais de excesso de androgénios. Periodicamente é aconselhável o pedido de análises gerais (função hepática e renal, ionograma) e hormonais (prolactina, androgénios) para confirmar a eficácia farmacológica e excluir potenciais efeitos secundários dos fármacos prescritos.

O hirsutismo é menos frequente nas mulheres asiáticas e africanas e, na Europa, as mediterrânicas são mais peludas que as nórdicas.

Sabe-se ainda que existe uma relação do hirsutismo com a obesidade, havendo melhoria do hirsutismo quando a mulher perde peso.

Em 80% dos casos, o hirsutismo está relacionado com um excesso de produção de hormonas masculinas (androgénios) pelos ovários e/ou glândulas supra-renais, sendo a causa mais frequente deste aumento da produção de androgénios a síndrome do ovário policístico.

Outros mecanismos envolvidos nas causas do hirsutismo são:

  • Resposta exagerada do folículo piloso (estrutura que dá origem ao pêlo) a níveis normais de androgénios, de causa desconhecida (hereditária, na maior parte das vezes). Neste caso, falamos de hirsutismo idiopático.
     
  •  Ingestão de medicamentos que podem estimular o crescimento dos pêlos (corticosteróides e anabolizantes, por exemplo).
     
  • Em casos raros, pode ser uma manifestação de uma doença mais grave, como tumores (benignos ou malignos) dos ovários e das glândulas supra-renais. Ainda que rara, esta possibilidade deve ser sempre excluída pelo endocrinologista.

Dependendo do grau de hirsutismo - leve, moderado ou grave - para além do crescimento anormal dos pêlos, há, muitas vezes, outros sintomas associados, como pele oleosa, acne, cabelo fraco e oleoso, ciclos menstruais irregulares e redução da fertilidade. Nos casos mais severos, estão também presentes sinais de masculinização: 

  • Voz grossa;
  • Aumento da massa muscular;
  • Redução do tamanho das mamas;
  • Aumento do tamanho do clítoris; 
  • Infertilidade.

O diagnóstico é feito através da observação da mulher, avaliando os locais da existência de pêlos, atribuindo-lhes uma pontuação em cada área, tanto maior quanto maior a densidade e espessura dos pêlos.

O diagnóstico da causa do hirsutismo é baseado em análises ao sangue numa determinada fase do ciclo menstrual, podendo ser necessário, por vezes, repetir essas análises, antes e após uma injecção de uma substância que estimula as glândulas supra-renais. Em alguns casos, dependendo do que se encontrar no exame físico, também pode ser necessário recolher urina durante 24 horas para avaliar se há excesso de produção de cortisona.

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Referência
Dr. Jorge Dores - Endocrinologista