Doença de FabryPerturbações da nutrição e do metabolismo

Atualizado em: Domingo, 29 de Maio de 2016 | 347 Visualizações

Fonte de imagem: From Wikimedia Commons

É a insuficiência ou ausência de uma enzima essencial que está na origem da Doença de Fabry, caracterizada pela acumulação de gordura nas paredes dos vasos sanguíneos e dos tecidos. É uma patologia rara e hereditária que afecta sobretudo os homens.

Tudo começa coms uma mutação no gene GLA, onde está localizada a enzima alfa-galactosidase, responsável pela degradação e eliminação de um tipo de gorduras específicas (GL-3).

Essa mutação genética faz com que, num determinado organismo, não haja produção desta enzima ou que a sua actividade seja insuficiente: a consequência é a acumulação progressiva daquela gordura no interior das células, sobretudo nas paredes dos vasos sanguíneos.

É um processo generalizado a todo o corpo, o que significa que não há tecidos nem órgãos imunes. Com o acumular da gordura, coração, rins e cérebro, entre outros, vão deixando de funcionar correctamente, causando problemas e complicações que podem pôr em risco a vida.

É quase sempre na infância que a Doença de Fabry se manifesta, sendo a dor o primeiro sintoma e o mais comum.

Provavelmente causada por uma lesão no sistema nervoso, surge, em muitos doentes, associada a variações do clima, exercício físico intenso e stress.

E pode manifestar-se de duas formas diferentes - através de sensações como ardor, formigueiro, picadas e desconforto constante nas mãos e nos pés (são as acroparestesias) ou através de episódios de dor intensa, descrita como uma queimadura, inicialmente sentida nos pés e nas mãos mas irradiando para outras partes do corpo (são as chamadas crises de Fabry, passíveis de causar um elevado grau de incapacidade).

Comum entre os doentes é a dificuldade, ou até impossibilidade, de suar, o que se deve à acumulação da gordura nas glândulas sudoríparas e a lesões no sistema nervoso autónomo. O resultado são episódios de febre sem causa aparente, o sobreaquecimento em exercício físico e a intolerância ao calor.

Já o sinal mais visível desta doença rara é uma característica erupção cutânea, com lesões de cor vermelha escura e espessas. São os angioceratomas, localizados sobretudo entre o umbigo e os joelhos, mas podendo também surgir nas pregas cutâneas (cotovelos e joelhos). E tanto podem ser semelhantes à ponta de um alfinete como ter vários milímetros.

Os olhos também sofrem com a ausência da enzima alfa-galactosidase. A gordura acumula-se na córnea, dando origem a zonas opacas com um padrão que imita os raios de uma roda de bicicleta ou uma espiral. No entanto, estas opacidades não perturbam a visão.

Comuns são ainda as queixas digestivas, com dor após as refeições, náuseas e vómitos. Problemas renais e cardíacos, com risco de insuficiência dos órgãos, e problemas neurológicos, com risco de acidente vascular cerebral em idade jovem, estão também associados à Doença de Fabry.

O mesmo acontece com perturbações do foro neurológico, sendo frequentes sentimentos de desespero, negação dos sintomas e depressão.

A Doença de Fabry é hereditária, o que significa que passa de pais para filhos.

E passa através do cromossoma X, de que o homem recebe uma cópia e as mulheres duas. É por isso que esta patologia afecta sobretudo, mais gravemente e em idades mais jovens o sexo masculino.

A mutação genética responsável pela doença localiza-se no cromossoma X, que o homem transmite às filhas e a mulher aos filhos ou às filhas. Isto significa que nenhum filho de um homem com a doença herda o gene defeituoso, mas todas as filhas o recebem. Se a mutação genética for transmitida pela mãe todos os filhos têm uma probabilidade de 50% de a herdar, independentemente do sexo.

A doença pode afectar, pois, qualquer pessoa que herde uma mutação do gene GLA. Mas a gravidade dos sintomas depende da produção da enzima alfa-galactosidase: as mulheres podem apresentar desde níveis muito próximos do normal até à ausência total de actividade; já os homens, normalmente, têm pouca ou nenhuma actividade enzimática, pelo que, neles, a doença tende a ser mais grave e a declarar-se mais cedo.

Dado que a doença decorre da insuficiência ou ausência de uma enzima otratamento visa, precisamente, repor os níveis normais, neste caso de alfa-galactosidase. É a chamada terapia enzimática de substituição, que se faz com dois produtos aprovados em 2001.

Esta é uma doença que surge num em cada 40 mil bebés do sexo masculino, não existindo, porém, dados sobre a sua incidência em Portugal.

A doença de  Fabry apresenta um padrão hereditário ligado ao cromosoma X

 

A Doença de Fabry é uma das 39 Doenças Lisosomais de Sobrecarga (DLS). São doenças metabólicas originadas por alterações no funcionamento do lisosoma, um pequeno organismo celular responsável pela divisão das moléculas em partículas mais pequenas. É uma espécie de central de reciclagem. Quando o lisosoma não funciona adequadamente, o que acontece é que as moléculas que, pelo seu tamanho, não conseguem ser eliminadas ou reutilizadas acabam por se acumular nas células, tornando-se tóxicas e prejudicando tecidos e órgãos.

Individualmente, cada uma destas doenças é muito rara. As 27 mais frequentes incidem sobre um em cada quatro mil recém-nascidos no nosso país, sendo quase todas doenças genéticas e atingindo de igual modo rapazes e raparigas. Pai e mãe podem não ser doentes, embora um deles possa possuir o gene defeituoso.

O maior risco existe quando as duas cópias do gene - masculina e feminina - associadas à patologia estão alteradas, o que significa que os filhos vão desenvolver manifestações clínicas da doença.

Só três das DLS - doenças de Fabry, de Hunter e de Damon - implicam uma transmissão ligada ao sexo na medida em que respeitam ao cromossoma X. Significa isto que os pais passam a doença às filhas, com a possibilidade de as mães transmitirem a doença a ser na ordem dos 50/50, tanto podendo passá-la a filhos do sexo masculino como do feminino.

São muitas e distintas as manifestações das DLS, dependendo do órgão que é afectado. Algumas têm maior impacto físico, enquanto outras incidem sobretudo no sistema nervoso, com consequências a nível do desenvolvimento intelectual e mental.

Além disso, uma mesma patologia do lisosoma pode apresentar formas clínicas muito diversas, desde formas infantis graves, que levam à morte nos primeiros anos de vida, até formas adultas ou crónicas, com uma progressão mais lenta e sintomas menos graves

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