Capsulite adesivaOssos, Articulações e Músculos

Atualizado em: Domingo, 28 de Janeiro de 2018 | 127 Visualizações

Fonte de imagem: Keyner Luiz

A capsulite adesiva ou "ombro congelado" é uma doença de causa desconhecida. Por vezes os doentes associam o seu inicio a um episódio traumático.

Outros doentes referiam um quadro de dores ocasionais no ombro, que não impediam as atividades de vida diária e que progressivamente se foi transformando num quadro incapacitante. A capsulite adesiva é mais frequente em doentes do sexo feminino entre os 45 e os 55 anos de idade. Os doentes diabéticos ou com antecedentes de diabetes na família e os doentes com problemas da tiroide têm uma maior probabilidade de desenvolver uma capsulite adesiva.

Na capsulite adesiva ou "ombro congelado", um processo inflamatório dentro da articulação leva a uma diminuição progressiva do fundo de saco axilar, a um encurtamento de todos os ligamentos, à formação de aderências (pontes entre várias estruturas) e a um aumento da espessura da capsula, a qual perde a sua distensibilidade. São estes factos que levam à principal característica desta doença que é a limitação da mobilidade passiva (aquela que o examinador pesquisa no doente), sobretudo da rotação externa.

Classicamente descrevem-se 3 fases desta doença:

Uma fase dolorosa, que corresponde ao período de maior inflamação da articulação. O doente sente uma dor predominantemente noturna que não permite o sono tranquilo e uma redução progressiva da mobilidade que o vai impedindo de levantar o braço e de chegar por exemplo atrás das costas.
Uma fase congelada em que a dor diminui, mas em que se mantem a redução da mobilidade, mantendo a incapacidade para uma vida com qualidade.
Uma fase de resolução em que progressivamente o doente readquire a mobilidade.

Também classicamente a doença é considerada auto-limitada com uma duração de cerca de dois anos. No entanto é impossível pedir a um doente que tem dores intensas, que não dorme e que tem limitações importantes da mobilidade, que aguarde nestas circunstâncias 2 anos. Também mais recentemente tem sido contestado o carácter benigno do curso desta doença pois verificou-se que uma percentagem importante de doentes que seguiram a história natural da doença apresentam limitações da mobilidade que interferem com a qualidade de vida.

 

O diagnóstico é feito pelo médico. Isto porque, como é fácil entender, não há nenhum exame que ilustre a limitação da mobilidade passiva, característica principal desta doença. Por vezes na fase inicial é difícil fazer o diagnóstico diferencial entre esta doença e o síndrome de conflito sub-acromial agudizado ou a tendinopatia calcificada, mas um exame cuidado, centrado na dor, nos sinais de conflito e nas restrições da mobilidade leva ao diagnóstico.

Como já se deu a entender, os exames complementares são de valor limitado nesta doença. A radiografia é normal e a ecografia apresenta por vezes alterações inflamatórias dos tendões. A ressonância magnética pode mostrar alterações da capsula articular compatíveis com esta doença e alterações inflamatórias ou estruturais dos tendões.

A maior parte dos doentes que observamos está na fase dolorosa já há alguns meses e tem francas limitações da mobilidade passiva e ativa que impedem uma vida com qualidade.

O tratamento tem como objetivo inicial a diminuição da dor. A maior parte dos doentes já fez tratamentos com vários medicamentos sem sucesso. Também já fez tratamentos de fisioterapia com poucas melhoras. È importante sublinhar que quando existe um quadro de capsulite adesiva esta doença se sobrepõe a todas as outras que o ombro possa ter. Assim se houver uma rotura da coifa demonstrada na ressonância é fundamental restabelecer a mobilidade e só posteriormente se se mantiver um quadro de rotura da coifa então tratar esta patologia.

Na nossa experiência a infiltração intra-articular é o ato médico com maiores probabilidades de controlar o processo inflamatório levando a uma redução franca da dor e criando a possibilidade de, com fisioterapia, tornar a ganhar a mobilidade perdida. A grande maioria dos doentes recupera a mobilidade praticamente completa desta forma. Há no entanto uma minoria que não fica sem dor com a infiltração ou que tendo ficado sem dor não consegue na fisioterapia reganhar a mobilidade perdida. Estes doentes têm indicação cirúrgica.

Embora esteja descrita uma técnica de mobilização do ombro sob anestesia, ou seja, com o doente anestesiado é forçada a articulação rompendo assim as estruturas que primeiro cedam, o nosso grupo não a utiliza.

O tratamento cirúrgico é feito por artroscopia. O objetivo é, libertar sob visão direta a capsula articular, obtendo uma mobilidade passiva praticamente normal. Assim no fim da intervenção cirúrgica o paciente já não tem a restrição estrutural que lhe impede a mobilidade e deve de imediato iniciar a recuperação. O nosso protocolo implica a colocação de um catéter (tubo muito fino) na indução anestésica, que permite anestesiar o ombro e o braço. No pós operatório imediato é possível demonstrar ao doente a mobilidade conseguida. Nos dias subsequentes é feita fisioterapia bi-diária sob anestesia loco-regional (do ombro e braço) facilitando assim a manutenção da mobilidade conseguida. Os tratamentos de fisioterapia podem manter-se por mais três meses, na fase inicial diários, diminuindo posteriormente a frequência à medida que o ganho de mobilidade se mantem. O mais provável é, que no fim do tratamento, o doente readquira uma mobilidade muito próxima do normal. As restrições remanescentes não são impeditivas de qualquer atividade de vida diária.

Em resumo a capsulite adesiva ou "ombro congelado" é uma doença de causa desconhecida, mais frequente nas mulheres de meia idade, que se manifesta por uma dor predominantemente noturna que perturba o sono e por uma restrição progressiva da mobilidade do ombro. O diagnóstico é clinico (feito pelo médico) e os exames complementares (RX, Ecografia, TAC e Ressonância Magnética) são de interesse limitado. O tratamento tem como objetivo controlar a dor e posteriormente reganhar a mobilidade perdida. O resultado do tratamento é bom, ficando a maioria dos doentes sem dores e com uma mobilidade praticamente completa.

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