Abcesso pulmonarSangue e Sistema Cardiovascular

Atualizado em: Domingo, 18 de Dezembro de 2016 | 61 Visualizações

Os abcessos pulmonares são cavidades que se originam no pulmão, com acumulação de tecido pulmonar morto e líquido no seu interior. Como regra, um abcesso pulmonar corresponde a uma cavidade com um 1 cm ou mais de diâmetro. São causados por bactérias e são mais frequentes no lado direito.

Antes da existência de antibióticos, o abcesso pulmonar era uma doença devastadora, com uma taxa de mortalidade de cerca de um terço de mortalidade. Esta situação evoluiu favoravelmente ao longo do tempo, e, atualmente, a taxa de mortalidade e o prognóstico são muito mais favoráveis, com cerca de 90% dos doentes curados apenas mediante o recurso ao tratamento médico.

A frequência dos abcessos pulmonares na população geral não é conhecida. Eles são mais comuns na população idosas, pela maior prevalência de doenças periodontais e maior risco de aspiração. Um dos principais fatores de risco parece relacionar-se com a imunodepressão e com a doença obstrutiva brônquica, podendo nestes casos a mortalidade atingir taxas de 75%. Os abcessos pulmonares podem ser classificados com base na sua duração: com menos de 4-6 semanas de duração são considerados agudos, tendo os crónicos uma duração superior. Podem ser únicos ou múltiplos primários ou secundários, estando os primeiros relacionados com processos infeciosos, por aspiração ou pneumonia, e sendo os segundos causados por condições preexistentes, nomeadamente doença obstrutiva, bronquiectasias (dilatações dos brônquios), imunodepressão, entre outras.

O abcesso pulmonar resulta da passagem das bactérias da cavidade oral para o tecido pulmonar. Estes doentes apresentam particular tendência para pneumonias de aspiração, tendo com frequência doença periodontal, nomeadamente gengivite. São as bactérias anaeróbias existentes na cavidade oral a causa mais frequente de abcessos pulmonares. Outros agentes infeciosos, aeróbios, podem também causar abcessos pulmonares, embora menos frequentemente. São habitualmente infeções mais agressivas, associadas a pneumonia bacteriana, com necessidade de terapêutica urgente, surgindo a cavidade à medida que se desenvolve o processo de necrose do tecido pulmonar. Dentro destes incluem-se os Staphylococcus aureus, Streptococcus pyogenes, Haemophylus influenzae, Streptococcus pneumonia), Klebsiella, entre outros. 

Os doentes mais vulneráveis são os que apresentam doença dentária ou gengival, epilepsia ou alcoolismo, estando o risco relacionado com a maior possibilidade de aspiração de conteúdo da orofaringe, por alteração do estado de consciência. Dentro dos grupos de risco há a referir os doentes com alterações da junção gastroesofágica, alterações estruturais da faringe e esófago, doença de refluxo, dificuldade de deglutição por lesão neurológica, obstrução brônquica por tumor ou corpo estranho, má higiene dentária e oral, indivíduos com impossibilidade de proteção das vias aéreas, em casos de coma, perda de conhecimento, anestesia geral ou sedação. Outros casos de abcessos pulmonares estão relacionados com embolizações sépticas para o pulmão, tendo como causa a existência de bacteriémia (presença de bactérias no sangue) ou endocardite da válvula tricúspide.

O quadro clínico é variável, dependendo dos antecedentes do doente, da gravidade e extensão da doença e do microrganismo implicado. Os doentes com abcessos pulmonares por agentes bacterianos anaeróbios apresentam sintomas discretos que podem evoluir durante semanas ou meses, tendo habitualmente doença gengival associada. Estes sintomas podem assemelhar os da tuberculose pulmonar. Os principais sintomas são febre ao final do dia, com temperatura axilar de cerca de 37°-37,5°C, suores noturnos, tosse inicialmente seca e depois produtiva, dificuldade respiratória, dores torácica, perda de apetite e emagrecimento. A expetoração tem habitualmente cheiro fétido e causa um paladar desagradável. Podem surgir sangue na expetoração e pleurisia, em caso de rotura do abcesso para os brônquios ou para a cavidade pleural, respetivamente.
 
A avaliação médica e a auscultação fornecem elementos importantes que permitem um melhor esclarecimento do quadro clínico.
 
As complicações dos abcessos pulmonares resultam da rotura para o espaço pleural provocando empiema, fibrose pulmonar, pulmão encarcerado, insuficiência respiratória, fístula broncopleural ou cutâneo-pleural ou disseminação da infeção pela corrente sanguínea.
 
Nos doentes com empiema associado a abcesso pulmonar, a drenagem do empiema sob tratamento antibiótico prolongado é com frequência essencial.

Para lá da avaliação médica, deve ser realizado um estudo analítico pormenorizado, sendo o hemograma e os parâmetros inflamatórios essenciais.
 
A colheita de expetoração deve ser realizada antes do início do tratamento antibiótico, englobando o teste de sensibilidade aos antibióticos.
 
A colheita de sangue para cultura de agentes microbianos pode ter um papel importante na identificação da causa do quadro clínico.
 
A radiografia é útil. A imagem radiográfica típica de um abcesso pulmonar é a de uma cavidade de contornos irregulares com um nível hidroaéreo no seu interior.
 
A tomografia computorizada permite uma melhor definição anatómica das lesões pulmonares.
 
Para obtenção de material estéril pode realizar-se aspiração de conteúdo do abcesso por punção transtraqueal ou transtorácica com agulha, cultura do líquido pleural ou hemoculturas.
 
A broncoscopia é importante quando se suspeita de obstrução brônquica por carcinoma ou inalação de corpo estranho.

O principal problema no tratamento dos abcessos pulmonares é a presença crescente de resistências aos antibióticos. Face ao risco elevado de recorrência com regimes terapêuticos de menor duração, a terapêutica antibiótica dos abcessos pulmonares deve ter a duração média de cerca de 4 a 6 semanas, devendo manter-se até haver resolução da imagem radiológica ou ate a redução para uma lesão pequena e estável. Os antibióticos devem ser inicialmente administrados por via intravenosa e só depois por via oral. A intervenção cirúrgica é muito raramente necessária, limitando-se a casos de má resposta à terapêutica médica, neoplasias ou malformações congénitas.

O reconhecimento e tratamento precoce das infeções respiratórias são essenciais para prevenir a sua evolução para abcesso pulmonar. Uma boa higiene oral é igualmente importante. Os doentes com perturbações gastroesofágicas devem ser instruídos de modo a evitar a aspiração do conteúdo gástrico, devendo dormir com a cabeceira elevada e não enchendo demasiado o estômago antes de irem dormir.

Fontes

  • Koegelenberg C, Lung Abscess, SA Fam Pract 2007;49(5): 50-52
  • Family Practice Notebook, 2013
  • Ana Moura Gonçalves e col., Os abcessos pulmonares em revisão, Rev Port Pneumol 2008; XIV (1): 141-149
  • BMJ Publishing Group Limited, Set. 2012
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