Um novo casal no seio de uma família reconstituída – Especificidades e desafiosNotícias de Saúde

Quarta, 08 de Julho de 2015 | 643 Visualizações

Fonte de imagem: Mulheresdequarenta

Uma reflexão sobre as melhores estratégias para ajudar um casal a manter a identidade e (sobre)viver no seio de uma família reconstituída não é possível sem considerar o papel dos filhos de uniões anteriores. A forma como a sua presença e as exigências que daí decorrem são geridas é determinante para a vida de um dois que se encontra, muitas vezes, perdido num contexto que vai para além da soma aritmética de um mais um mais um mais um. A satisfação conjugal e o desempenho parental são indissociáveis, influenciando-se.

Com o aumento das separações e divórcios crescem também as novas uniões e as famílias reconstituídas. Estas famílias têm como principais aspectos diferenciadores um maior número de elementos e a possibilidade de viver em mais do que uma casa; a relação entre pais e filhos ser prévia à nova união; a confusão de papéis, responsabilidades, direitos e obrigações é potenciada. Apesar destas diferenças, os estudos demonstram que as semelhanças são superiores.

Numa família nuclear, constituída por pai, mãe e filhos biológicos, muitas vezes é difícil definir regras e limites. Imaginemos, então, que o pai de um ou mais filhos de uma ou mais uniões anteriores se une com uma mãe que também já tem um ou mais filhos e este casal decide ter filhos… Casos ainda há em que, mercê da regulação de poder paternal, um ou mais filhos residem com a família em períodos alternados. Para aumentar a percepção de caos, imaginemos que os dois progenitores de uma criança se voltam a casar e que esta passa a integrar duas famílias reconstituídas. A família passa a ser definida não a partir do casal, mas das crianças e dos espaços onde circulam. As fronteiras que separam os diferentes lares são, assim, ignoradas, com uma rede familiar significativa, na qual se insere o novo casal, apenas como mais um dos elementos da rede. Sem identidade como casal, sem tempo para a fase de enamoramento e adaptação pessoal.

Que desafios se colocam ao casal? Impõe-se conciliar os vários interesses e exigências:

- Gestão de expectativas: Os casais costumam ter expectativas demasiado optimistas e irrealistas em relação à nova união (“O amor resolve tudo!”; “É agora que tudo vai dar certo!”), pensando que o ajustamento ao re-casamento é imediato e que o afecto entre padrastos/madrastas – e respectivas famílias – e enteados, bem como entre irmãos, surgirá de forma imediata.

- Aceitação: Esta família não é tradicional e a tentativa de que funcione como um sistema fechado ao exterior e impermeável às suas influências será em vão.

- Tempo entre relações: esta parece ser uma variável importante. Se for muito extenso dificulta a aceitação da mudança; se for muito curto dificulta a resolução do processo de luto (trate-se de um divórcio, viuvez ou de uma mãe ou pai solteiro). Muitas vezes, como é característico de um período de enamoramento e paixão, existe uma “pressa” excessiva de viver em conjunto que pode condicionar de forma negativa a convivência.

- A nova união deve evoluir na família de forma gradual: começando por visitas, pernoitando por vezes, permitindo interações crescentes e a construção de laços.

- Um primeiro casamento é distinto de um re-casamento. Tradicionalmente, num primeiro casamento a relação do casal precede os filhos. Num re-casamento, com filhos, a adaptação é mais difícil, sem tempo para uma relação a dois, para conhecimento, adaptação, manutenção de namoro e reforço da união. Nas famílias reconstituídas, a relação conjugal e a relação com os filhos são construídas a par.

- O planeamento de um novo casamento, que se pretende isenta de conflitos, deve dar especial atenção à preparação dos filhos para a construção de uma nova família, para facilitar essa aceitação. Devem ser definidos papéis, comunicados e “sintonizados” os projectos de vida enquanto pais e parceiros, bem como definidos aspectos como as fronteiras e limites de autoridade e respeito.

- No exercício da parentalidade, o casal deve integrar, mesmo que transitoriamente, os modelos parentais anteriores a par do modelo que constrói em conjunto. Os filhos podem criar obstáculos a este exercício de parentalidade por conflitos de lealdade com o progenitor ausente (que podem ser agravados se existirem verbalizações negativas de um progenitor em relação ao outro), a cujos modelos educativos estavam adaptados. O padrasto/madrasta terá que ter presente que as mudanças demoram e que o seu papel será o de apoiar o progenitor biológico, podendo tornar-se mais interventivo/a com o tempo. Deve mostrar que não quer substituir o pai/mãe biológico/a e que o lugar que irá ocupar é novo. Os padrastos/madrastas podem sentir dificuldades para exercerem a sua autoridade e educar os enteados. Inversamente às funções de pai, mãe, filho e irmão, que estão claramente definidas em sociedade, as de padrastos, madrastas e enteados não o estão, pela ausência de um vínculo biológico ou legal. Esta lacuna pode enfraquecer a percepção de legitimidade no exercício da autoridade.

- Paciência, tolerância e aceitação são fundamentais na formação de uma nova família. A especialista em questões pós-divórcio Sílvia Papernow estima que demore “entre cinco a sete anos de coragem, compreensão e apoio para que (…) a solidez do relacionamento entre o casal se torne o centro forte da família”. 

- As fronteiras geracionais e familiares têm que ser reformuladas, o que pode demorar, até que seja reconhecido o papel e a posição de autoridade de todos os elementos da família e a mesma seja aceite por todos. O novo núcleo deve negociar as suas regras, limites, rotinas e rituais, conferindo um sentido de consistência e previsibilidade, que lhe permita alcançar uma identidade própria. É importante encontrar consensos e mantê-los – quanto às regras (horas de refeição, de trabalhos de casa, etc.) e rituais (férias, aniversários, comemoração de tradições como o Natal ou a Páscoa, etc.), por exemplo.

- Devem ser criados e mantidos momentos lúdicos para a nova família. Sem prejuízo destes, o casal tem que preservar tempo de qualidade para si e investir em momentos a sós.

- Quando os pais biológicos comunicam de forma eficaz, as regras nas duas casas são comuns e o progenitor que vive a maior parte do tempo com a criança permite as práticas parentais do outro, existem enormes benefícios para a criança. A existência da coparentalidade, uma relação cooperativa e construtiva com o ex-companheiro, com partilha da educação e das decisões, garante um maior bem-estar dos filhos.

- As comparações, positivas ou negativas, com a(s) experiência(s) conjugal(ais) anterior(es) devem ser evitadas a todo o custo. Todos transportamos para novos relacionamentos a “bagagem emocional” de relações passadas, mais ainda se existirem questões não resolvidas. Contudo, o peso desta “bagagem” não se deve traduzir em medo de sofrer, ou em padronizar comportamentos anteriores, com prejuízos óbvios para a intimidade ou, pelo contrário, de forma demasiado exigente, depositando expectativas excessivas no novo relacionamento, compensatórias das experiências negativas passadas. Nos primeiros casamentos, esta “bagagem” reporta à família de origem. No re-casamento, provém de pelo menos três fontes: família de origem, primeiro casamento, processo de separação e divórcio, juntamente com o período decorrido entre casamentos. A chave é aceitar as diferenças e identificar as potenciais ameaças à união, procurando resolvê-las rapidamente.

- Um elevado nível de stress parental (resulta de dificuldades na relação pai-filho) de um dos elementos afectará, inevitavelmente, a relação do casal. Nas famílias reconstituídas é difícil dissociar o exercício das funções parentais da vida do casal, devendo ser feitos todos os esforços para alimentar/fortalecer em paralelo as relações pais-filhos e a relação conjugal.

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Referência
Rita Fonseca de Castro, Psicóloga Clínica, Oficina de Psicologia